As cabeças rolarão, não haverá piedade, clemência ou salvação. Contato e envio de textos: cabecascortadas@gmail.com

O louco de Paris

Em seu camarim, Penélope ainda ouvia os aplausos abafados pelas paredes, pessoas surgiam à porta do recinto, acompanhadas de flores e presentes. De olhos marejados, a dançarina agradecia cada elogio que recebia com um largo sorriso no rosto. O tempo no relógio fora passando, e com ele, as pessoas que iam embora do teatro, até todo o local ficar vazio. Ali, apenas restavam duas faxineiras, recolhendo pipocas e sacos plásticos entre os bancos da platéia, Penélope e sua amiga Camille, que ainda tagarelavam distraidamente dentro do camarim, entre um cigarro e outro. Penélope olhou para o relógio, percebendo o tempo ter passado rápido. Com a ajuda de sua companheira, recolheu os presentes recebidos e alguns ramalhetes de flores.

Saíram do teatro, ambas carregando caixas de bombons, cartas e bilhetes, coisas que a dançarina fazia questão de guardar com carinho. Ventava forte nas desertas ruas de Paris, parcialmente iluminadas pela esplêndida lua cheia estampada no céu. Enquanto Camille comentava sobre o desempenho da amiga no espetáculo daquela noite, o vento uivava entre as árvores daquela extensa alameda. Penélope cobria o corpo com o longo casaco de pele, acendendo um novo cigarro. Ela havia notado o quanto o frio embelezava a face de Camille, deixando as maçãs de seu rosto levemente ruborizadas. A amiga de repente parou de falar, empacando no meio da calçada, de olhos vidrados em um bordel.

Colado na parede de tijolos, um grande cartaz anunciava um rosto atípico, e em cima da fotografia, “PROCURA-SE”, em letras vermelhas e garrafais. Camille colou o corpo nos braços da amiga, apontando o dedo em riste para o cartaz. Gaguejando, dizia ser aquele homem da foto um perigoso assassino, que havia feito de mais de dez parisienses suas vítimas. Penélope ficou a olhar a fotografia, os olhos fixos em cada letra do cartaz; não por medo, mas por mera curiosidade. Na verdade, Penélope não ouvia mais as notícias do rádio, a carreira artística havia sugado toda sua atenção, dedicando-se exclusivamente à dança e esquecendo-se do mundo exterior. Puxou a amiga para frente, retomando a caminhada, ainda intrigada com aquela tenebrosa foto.

Ambas, após alguns minutos a mais de caminhada, pararam em frente a um velho prédio. Camille olhou para a companheira, deslizando as mãos geladas pelos fartos cabelos negros da dançarina. Ela tirou uma das flores de um buquê que Penélope carregava nos braços, e colocou-a entre uma das orelhas dela. A dançarina aproximou os lábios nos de Camille e despediu-se com um longo beijo. Após alguns abraços e carícias, Penélope saiu do local, tendo tempo ainda de ver Camille entrar na porta do edifício e despedir-se com um sorriso.

Na verdade, não gostava de estar sozinha. Estava próxima de sua residência, mas o barulho das próprias sandálias batucando no chão causava-lhe certo arrepio. Adentrou em um beco mergulhado em escuridão, os postes apenas enfeitando o lugar. Jogou os objetos que carregava em cima de um banco de madeira, ajeitou o casaco de pele e sentou-se, tentando empilhar as caixas para melhor serem transportadas até sua casa. De repente, ouviu ruídos estranhos àquela noite. Virou o rosto, avistando, ao fundo, a silhueta de um homem de cartola. Percebeu que aquele estranho barulho que havia escutado vinham de dois cães amarrados em suas coleiras, presas pelas mãos do homem. O estranho não andava: parado como uma estátua funesta, tentava segurar os animais que pareciam ser bem mais fortes que seus braços. Foi quando um feixe de luz, proveniente da lua, clareou o rosto do homem, deixando à mostra um par de olhos cinzentos, uma boca de finos lábios e um pequenino óculos pairado no nariz adunco daquele velho de brancos cabelos como neve. Penélope, então, reconheceu o rosto daquele ser.

A boca abriu-se em um grito, um dos cães, com terrível agilidade, correra em direção à dançarina, que teve tempo apenas para lançar o próprio corpo contra o chão revestido de paralelepípedos. O animal avançou contra ela, mordendo-lhe uma das pernas com sua salivante bocarra. Aos gritos, ela sentia seu corpo sendo arrastado por uma força descomunal, suas mãos tentavam agarrar-se em qualquer objeto. O outro cão avançou a latir estridente, enquanto o outro mastigava com os dentes afiados o tornozelo de Penélope. Ela sentiu uma lufada de ar quente em seu pescoço, um hálito horrível entrou em suas narinas, um odor repugnante, de carne pobre. Um de seus braços fora puxado pela boca do segundo cão, que triturava a carne da dançarina com voracidade. A dor era terrível. Ela podia sentir sua pele descolar lentamente de sua carne, o sangue respingar no próprio rosto.

O velho da cartola aproximou-se da cena, os braços atrás das costas, e pacientemente sentou-se no banco de madeira, abrindo logo em seguida uma das caixas de chocolate que Penélope havia sido presenteada. Vendo aquele macabro espetáculo, mordia com suavidade o bombom que derretia em sua boca, enquanto a dançarina não mais gritava; entregue à morte, deixava o corpo ser dilacerado pelos dois abomináveis animais.

O velho, após comer todos os bombons daquela caixa, puxou para perto de si o par de cães, que tinham as bocas e focinhos empapados de sangue, pedaços de carne entre os dentes pontiagudos. Ele ergueu-se, olhou ainda os pedaços do corpo retalhado, espelhados pelo chão, e retirou-se do lugar, assoviando uma cantiga improvisada.

O sangue de Penélope pintava os paralelepípedos daquele beco de Paris, como um artista a dar vida à uma tela vazia.

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Olhos azuis

Linda. Ela era simplesmente linda.

Tinha os olhos azuis mais fantásticos que ele já havia visto até aquele momento da sua vida. Ele não conseguia encontrar nada que pudesse comparar com o brilho daqueles olhos. Amor à primeira vista. Literalmente. Diria ele mais tarde a ela.

Hanna era seu nome. Olhos lindos. Uma mulher fascinante. Hanna era a mulher perfeita. Linda, cabelos claros longos, rosto de menina, corpo perfeito. O longo vestido branco de alças delicadas, que deixava a mostra sua pele clara, delineava seu corpo perfeito e chamava a atenção de todos a sua volta. Um sorriso que transmitia pureza.

Conheceram-se por acaso numa festa de um amigo em comum, numa praia do litoral norte de São Paulo, durante as festas de final de ano.

Ele, já meio tonto de tanta bebida, acabara queimando o braço de Hanna com o cigarro sem querer. Antes de conseguir se desculpar já tinha levado um tapa na cara. Sem reação, ficou apenas olhando para aqueles olhos azuis, que lhe fuzilaram de ódio naquele momento. "Desculpe-me", foi o máximo que conseguiu dizer naquele momento. Que olhos lindos. Que olhos perfeitos.

Acabaram se tornando amigos e antes do final da festa, já se podia ver os dois passeando de mãos dadas pela praia.

A luz da lua fazia seus olhos brilharem ainda mais. Aquele momento, único, era um presente da vida para ele. Nunca havia conhecido mulher tão linda, tão inteligente, tão simpática e com um beijo tão gostoso como o dela.

Sempre se orgulhou de sua vida de solteiro, mas naquele momento jogaria tudo para o alto por ela. Solteirice, bebedeiras, boates e baladas.

Hanna era o seu nome. Era perfeita. À noite de ambos terminou no apartamento dele. Da varanda do apartamento se podia ver toda a praia. Bem mais longe, as luzes da cidade tornavam tudo perfeito. Sua vontade era ficar olhando para ela a vida inteira. Os olhos azuis mais lindos que já havia visto. À noite de amor mais perfeita que um homem poderia querer ter.

E agora, cerca de um ano e quatro meses depois, estavam eles novamente na mesma praia onde se conheceram. Onde ele fez suas promessas de amor eterno para ela.

Hanna. Através daqueles olhos ele viu o futuro de ambos.

Ela o olhava. Seus olhos continuavam fascinantes. Enterrada na areia da praia, próxima ao mar, com apenas a cabeça para fora, ela o olhava. Uma fita adesiva cobria seus lábios. Apenas seus olhos azuis podiam gritar em desespero enquanto ele acabava de jogar mais uma pá de areia no buraco em que ela estava.

Hanna. Como teve coragem de me trair? Depois de tudo que prometemos um ao outro? Como teve coragem de olhar para outro? Deixar outro homem olhar seus lindos olhos. Os olhos que me pertenciam. Os olhos que eu amava.

Presa na areia e com a boca vendada, o máximo que Hanna conseguia era olhá-lo desesperada. Seus olhos pediam perdão ao mesmo tempo em que o amaldiçoavam. Seus olhos azuis. Aqueles olhos que ele tanto amou.

A maré subia rapidamente àquela hora da noite. A praia estava deserta. Ele se agachou, beijou-a na testa e com uma faca arrancou os dois olhos de Hanna. Ela se debatia desesperada enquanto ele cortava seu rosto e com os dedos puxava-os para fora.

Enfiou os olhos no bolso da jaqueta e se afastou dela. De longe ficou olhando a maré subir até encobrir totalmente o amor da sua vida.

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Nossa Senhora do Bom Parto

Um dia de cão. A estafa me consome. A medicina é uma benção, mas para quem decide trilhar por esse caminho precisa estar preparado para dias como o dia de hoje. Tudo que precisava era de algo que me tirasse do ar, para eu não pensar em nada, em nenhum ser humano.

Meus colegas dizem que os seus plantões dão até para tirar um cochilo. Mas parece que todos decidem ficar doente do sábado para o domingo, justamente o dia do meu plantão. Tive que reanimar três pacientes com parada cardíaca. Outro com câncer que ainda não tinha sido diagnosticado, mas pelo andar da carruagem da morte, ele não demora muito, está em estágio avançado.

Tudo isso cansa muito. Escolhi a medicina por amor, por paixão. Dinheiro é bom sim, não sou nenhum comunista, gosto do dinheiro, mas a medicina está em minha vida acima de qualquer coisa. Mas desde que me formei, depois de acabar a residência, nunca tirei férias, e lá se vão quatro anos. Estou muito cansado, preciso desligar.

Foi aí que descobri o quanto o clorofórmio faz bem. Tinha ouvido de outros médicos, que não existe nada melhor para relaxar que cheirar clorofórmio. A ação é rápida, um estado de sair de dentro de si, de perder o controle dos músculos. Dou risada sozinho, realmente me sinto bem quando estou cheirando. Sempre consigo com os amigos farmacêuticos, daí depois dos plantões gosto de espairecer. E quando chego a minha casa, todo o estupor já passou.

Mas parecia que os santos todos não estavam indo muito com minha cara. Peguei um puta transito até chegar ao beco que sempre paro o carro e relaxo e que fica próximo a minha casa. Mas num percurso que faço em no máximo vinte minutos em dias normais, hoje fiz em quase uma hora. Mas tudo bem, afinal, eu estava próximo de me desligar de tudo, porque depois de cheirar bastante, eu iria para um bom banho e depois cair na cama.

Parei o carro, antes de tudo, fumei um cigarro. Mas fumei como se deve fumar – apreciando cada tragada, não pensando em nada além do ato de fumar. Foi nesse momento que vi uma mulher passar pelo carro, até levei um susto. Mas relaxei. Era uma dessas moradoras de rua. Ela estava acompanhada de muitos cães, alguns inclusive com calazar. A mulher carregava um saco cheio de vasilhas plásticas, certamente as tinha catado nos lixos da cidade. Eu já tinha visto essa mulher pelas redondezas e sabia inclusive que ela estava grávida. Sua barriga estava enorme. Ela fumava um cachimbo. Mas depois percebi que não era um cachimbo comum, era daqueles que os drogados usam para fumar crack.

Como uma criatura grávida podia fazer aquilo? No ímpeto da ética, na missão da minha profissão pensei em intervir, em ir lhe falar, mas meu estado de estafa não permitia isso, afinal era uma drogada, uma moradora de rua, que certamente estava sorvida pelas drogas há muito tempo.

Voltei a me concentrar no meu momento. Afinal, estava ali para isso. Molhei a gaze com o clorofórmio, e dei a primeira cheirada. Meu corpo começou a deslizar pelo banco do carro. Como é boa essa sensação. Sair de si. E fui cheirando, cheirando. Depois eu já chupava o líquido como se fosse gelo derretendo. E como num feixe de ilusão ouvi um grito. Estrondou pelo beco e por meus ouvidos sensíveis. Eu estava sob efeito do cloro, e tudo passou a ser tenebroso. Saí do êxtase para entrar numa onda de horror. Porque comecei ver tudo de uma forma diferente.

Percebi que além dos gritos, ela chamava por nossa senhora do bom parto. Os cães latiam ao redor dela. E isso dava um ar nebuloso e de pavor ao beco. Sabia que ela estava em trabalho de parto, via como ela se contorcia. Mas eu não conseguia vê-la como um ser humano. Em minha viagem, ela era a sombra louca da noite.

Eu chupava a gaze molhada de cloro e as sensações iam e vinham me deixando mais calmo, me distanciando dos gritos. Mas logo eu conseguia ver aquela sombra feminina e consegui entender que os cães esperavam o filho e um deles poderia ser o genitor da cria que dali sairia. A mulher-sombra-da-noite chamava por uma santa que nunca ouvi falar. E logo ela que a pouco puxava uma fumaça em seu cachimbo, estendia sua voz a nossa senhora do bom parto.

Vi a criança-cão despontar pelas entranhas da mulher, acho que a santa a ajudou, mas era um serzinho miúdo. Os cães rodavam, latiam. Acho que feliz pelo filho nascido. Eu puxava o liquido da gaze. E comecei a entender. Os cachorros esperavam uma refeição. A mulher estava fraca, seu sangue corria. A criança não chorava. Os cães começaram a brigar pela comida. Rosnavam, latiam. Eu nada podia fazer. A mulher estendeu o braço com o resto de forças que tinha e pegou o cachimbo e o acendeu levando-o até a boca. Tragou profundo. Eu dei outra puxada na gaze, acho que estou desmaiando...

Plínio Gomes escreve: http://zingador.blogspot.com/, http://pliniogomes.blogspot.com/, http://blogcabecascortadas.blogspot.com/ e http://universoderetalhos.blogspot.com/

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Infiel.

A vida de um novo autor é dureza. Estava em dificuldades e minhas economias pela metade. Apelei. Fechei o negócio com um corretor de imóveis online. A casinha ficava numa cidadezinha que não exigia grandes rendimentos e me livrava do alto custo de vida na metrópole. Vi algumas fotos do casebre, paguei e mudei. Tomei o ônibus em menos de uma semana.
Embolei a garganta logo que Cheguei. A urbezinha exalava cheiro de poeira, o tempo dava a impressão de que não corria e tudo parecia morto. Até o sol estava sem vida por aquelas bandas. Olhei para os lados e vi aquele bar escuro, não havia ninguém atrás do balcão, acho que não existia um número suficiente de fregueses capaz de preocupar o responsável pelo atendimento. O guichê das passagens também estava vazio, acho que o fluxo de passageiros também não era aceitável para manter o atendente atento em seu posto.
O chão era sujo e o motorista do ônibus fazia cara de tédio enquanto esperava pelo horário de seguir. O cobrador desceu com calma para ver se havia alguma encomenda, foi a primeira vez que o vi tão lento desde que entrei naquele transporte, o cara parecia intoxicado por uma poção lerda, pesada. Quando o cobrador voltou, apresentei o bilhete e retirei minha bagagem. A terra era vermelha, grudava na barra da calça e na mochila.
Foi quando o ônibus partiu sem nenhum passageiro novo e sem nenhuma nova encomenda. O motorista e o cobrador pareciam aliviados pela partida. Fiquei olhando o ônibus sumir por entre a poeira que subia do chão. O vento era frio, não havia ninguém pela rua, era estranho, ainda mais para um homem que veio da agitação da cidade grande. O tempo estava emburrado, mesmo assim todo aquele marasmo me parecia exacerbado para uma sexta-feira de tarde. E depois, com ou sem ventania, todos precisam ir e vir o tempo todo e por vários motivos.
Minha garganta seca me provocava para que entrasse no bar, mas estava receoso, era tudo tão feio e abandonado que num primeiro momento hesitei. Permaneci parado por alguns instantes, estava na dúvida entre ir para meu novo lar ou esperar que o tempo decidisse o que queria, por que sempre odiei andar embaixo de chuva, por isso temia em me arriscar pela rua.
Olhei mais uma vez em volta e o vento me surpreendeu de novo, encheu minha garganta com aquela terra de que falei. O gosto de barro tomou conta de meu paladar, não havia outro jeito, por isso tive de entrar no bar. Vi a mulher sentada na mesa - quase imperceptível, por causa da penumbra que afrontava a grande porta lateral - com uma máquina de calcular bem ao lado de um calhamaço de dinheiro.
- Bom dia. - falei, meio sem jeito, tentando me fazer visível, depois de permanecer em pé ao lado dela por mais de 5 min.
Ela não respondeu.
- Oi. Preciso de uma água. - chamei novamente.
A gorda levantou calada, contornou o balcão e alcançou uma garrafa 600 ml.
- Dois reais. - foi o que ela disse, enquanto me olhava de olhos arregalados, como se visse um fantasma.
Paguei e tratei de sair logo dali. Afinal de contas, o comitê de boas vindas não foi agradável. O comportamento da mulher me aborreceu, pois a meu ver, uma terra santa deveria ter pessoas muito mais espirituosas. Talvez fosse por isso que o semblante do motorista e do cobrador era de alívio durante a partida. Quando coloquei o pé na rua, minhas costas doíam. Credo, que energia parada, pesada, porra, caralho, que coisa, fiquei pensando, tomara que isso tudo tenha sido apenas uma má impressão.
Acendi um cigarro e procurei um taxista, a ventania aumentava e o céu ameaçava despencar. Não achei. Bem, numa cidade vazia como aquela, a presença de um chofer era algo realmente improvável. Incomodado e conformado, respirei fundo e decidi correr o risco de chegar encharcado. A primeira tragada embolou com a terra e notei um rastro de fumaça em marrom com vermelho brotando de minhas ventas. O meu crivo vagabundo parecia ainda mais forte, por causa da mistura do alcatrão e a nicotina com aquela poeira que a refega esparramava.
Saquei o papel do bolso para conferir meu novo endereço. Andei algumas quadras e vi uma torre enorme, com mais de quarenta metros e uma grande igreja em frente de uma praça tão imensa quanto a tal da torre e a igreja. Um santuário gigante. Estranhei algo daquele tamanho em um lugar tão abandonado e pequeno, mesmo tendo a fama de terra santa.
De repente, um susto. Uma voz que parecia vir do além seqüestrou minha atenção. Era tão distante e tão fria que por um minuto achei que estava delirando. O recado vinha embalado numa música instrumental e fúnebre: “Comunicamos o falecimento de Pedro das Quantas, seu corpo será velado na capela mortuária a partir das 19h. Oremos por nossas almas e por essa que encomendamos ao céu. Amém.” A música foi baixando de volume e tudo silenciou.
Fiquei tão encafifado que me plantei pensando e admirando a torre gigante. Quando meu transe passou, olhei para a esquina e vi o número 666 no outro lado da rua, era ali, uma construção tão simpática quanto nas fotos que o corretor me enviou por e-mail. Sinal de que foi correto comigo. Estranhei que o portão estava aberto. Eu nem lembrava quando vi um portão sem cadeado na vida.
Adentrei com o pé direito, estava limpa, a mobília chegou intacta e foi disposta exatamente como indiquei aos homens responsáveis pela mudança. Ufa, já me sentia quase contente. Conferi as torneiras e jorrou água. Tomei um copo e percebi que era pura como eu jamais havia experimentado. Adorei. Bebi mais dois copos gigantes. Fui para o chuveiro. A poeira grudou em mim de um jeito que não havia saída. Foi o banho mais longo de toda minha vida.
Limpo, fui para a sala. Acendi um cigarro e abri as janelas. Entre uma tragada e outra, notei uma grande movimentação de carros. Pensei que fosse um bar do outro lado da rua. Tive a idéia de sacar meu litro de uísque da mochila, meu plano era encher a cara e depois sair para dar uma olhada no lugar e quem sabe descolar um corpo para me enroscar, já que a tempestade ficava só na ameaça.
Coloquei um DVD do Pink Floyd. Que maravilha, finalmente um pouco de diversão, pensava enquanto ouvia e via as crianças destruindo as carteiras escolares para depois rumarem para aquela máquina gigante que transformava os pestinhas em carne moída. Quando o relógio bateu 21h estava mais louco que nunca e fui para a rua. Percebi que os carros não paravam de chegar e se amontoavam na esquina, opa, me dei bem, pensei.
Assim que me aproximei notei que se tratava de um velório. Foi quando juntei uma coisa com a outra e deduzi que o lugar era o local anunciado pela tal voz misteriosa. Achei melhor voltar para casa. Entrei e fui direto para a cama, estava alto e desapontado, queria dormir para acordar pela manhã de humor e vigor renovados. Nem os sapatos eu tirei.
Acordei perto das 9h, o sol adentrava pela fresta da janela e avisava que o tempo estava ótimo. Ainda sonolento, tive a impressão de ouvir uma música católica. Saí da cama azedo, com a cabeça doendo, escarrei no chão e blasfemei. Joguei a culpa pelo azedume no uísque da noite passada e no despertar nojento. A boca estava com um gosto horrível. Acendi um cigarro e preparei meu café. Abri as janelas e a música soou ainda mais alta. Olhei para os lados e avistei uma porção de gente caminhando para a igreja. Foi quando me dei conta de que a torre da basílica interagia o tempo todo com os moradores do lugarzinho.
As pessoas que passavam pelo passeio me olhavam de um jeito estranho e não mostravam os dentes. Acho que meu visual chocava os caras. Era muito engraçado. De repente a música cessou, voltei para a cama e apaguei. Dormi até o final da tarde, quando despertei mais uma vez com o sistema de som da torre que avisava mais um recado: “Comunicamos que a missa em celebração da família será realizada amanhã, às 19h. Cordeiro de Deus, que tirai os pecados do mundo; dai-nos a paz. Amém.”
Fiquei roxo de raiva. Será que todos aqui são católicos? Pensei. Passei trinta dias nessa rotina, morria um por semana e a torre avisava. Os recados eram infinitos, nada de proveitoso era comunicado, ou era um falecimento ou uma celebração da igreja. O padre não calava a boca, estava sempre cheio de recados repetidos. E para piorar a situação, não conseguia escrever meus textos e enviá-los para os jornais e revistas que tinha compromisso. Meu editor havia ligado várias vezes, precisava concluir meu original de uma vez. Fiquei dias sem dormir para tentar escrever, mas toda hora que me acalmava e a inspiração voltava, surgia um daqueles recados lamentáveis, que me deixavam nervoso e sem inspiração novamente. Era um ciclo vicioso.
Pensei em matar o padre, sim por que era ele quem dava os recados incessantemente. No entanto, sabia que em poucos dias haveria um novo sacerdote na cidade e o problema voltaria, tinha de pensar em algo melhor, mas em quê? Até que veio uma idéia. Já sei! Preciso matar todos os católicos dessa cidade, desse jeito, esse serviço de alto-falante vai acabar pela falta de fiéis. Soltei uma gargalhada mórbida, tão gelada que cheguei ao ponto de me olhar no espelho e me impressionar com meu novo e estimulado semblante. Minhas feições eram insanas como nunca, mas o gosto de sangue que surgia em minha boca e os assassinatos que via eram divinais e provocavam uma reação muito boa em meu cérebro. Foi a primeira vez que o hediondo me gerou prazer, eu juro. Sinestesia mais que pura.
Precisava agir sozinho, por que se conseguisse um comparsa, ele poderia abrir a boca, caso fosse interrogado pela polícia. Eu não podia correr esse risco. Pensei mais um pouco e solucionei o impasse. Acessei a rede e comprei um filhote de cão pela internet. Ele faria o trabalho sujo. Só tinha de criá-lo isolado e depois soltá-lo na cidade. Acertei tudo rapidamente. Quando chegou, o tranquei dentro de uma caixa de madeira totalmente fechada, a única abertura ficava entre a base inferior da porta e o assoalho, nada maior que 10 cm. Eu não o via crescer e ele não me via alimentando-o com carne vermelha. Cinco meses depois, percebi as rosnadas vindas de dentro da tal caixa. O animal estava forte e insano. Era hora de libertá-lo.
Esperei a missa das 18h para soltar o cão. Quando percebi a movimentação em frente da igreja, fiquei ao lado da caixa e abri a porta. O danado saiu correndo exatamente como previ. Dava para ouvir os gritos na rua. Os dias seguiram cheios de ataques. Os recados que vinham da torre comunicavam a morte de pessoas estraçalhadas pelo animal. Aos poucos o caos tomou conta do lugar. O bicho era esperto e fugia para a mata depois de cada investida e transformava-se num caçador sanguinário, esperto e implacável. A população local se mobilizou, a prefeitura e a polícia, tudo em vão, o animal era uma máquina de matar.
A partir daí os recados me davam um gosto cada vez melhor na boca, e as imagens eram ainda mais fenomenais, eu nem me importava de ser acordado pelo alto-falante da torre. A sinestesia me era mais apetitosa que nunca. Enquanto as mortes aconteciam, minha inspiração voltou a toda e minha carreira profissional estabilizou novamente, por que eu transformava os ataques do cão em contos incríveis. Tudo com base nas sensações que sentia, misturadas com os recados do padre e as manchetes veiculadas pelo jornaleco do lugar.
Era uma pena ter de matar aquelas pessoas, mas o escritor dentro de mim não poderia morrer só por causa da fé católica. Em poucos dias, a população foi dizimada e o alto-falante finalmente perdeu a função. Daí para frente, decolei em meio ao perverso silêncio que se abateu sobre meus dias. A essa altura a sinestesia me era muito mais prazerosa que o sexo. Logo que enviei meu novo livro de contos, recebi uma posição.
Era meu editor do outro lado da linha:
- Alô.
- Carlos, seu novo livro de contos é tão malvado quanto funesto. Já está em fase de diagramação e logo será impresso. Até mais, amigo.
Desliguei e sorri macabramente. Foi o prazer mais impetuoso que senti. Naquele momento minha sinestesia era forte como a morte. De repente, ouvi um rosnar, era o amaldiçoado cão, que baixou as orelhas e veio até mim, deitou e lambeu meu coturno em sinal de devoção. A partir daí saí em odisséia pelo mundo, para promulgar minha literatura maldita. Seis meses depois estava gélido e maltrapilho, a pisar solos santos e carcomer carne católica, mas sempre, sempre ao lado de meu cão assassino. Um ministério arrebatador, sanguinário, perverso, prazeroso, infinitamente sinestésico e infiel.

Afobório escreve: http://www.afoborio.blogspot.com/ - www.e-blogue.com/blogs - www.3ammagazine.com/brasil - http://www.becodocrime.net/
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Arrependimento

É difícil lembrar com detalhes coisas que ocorreram tantos anos atrás, mas recordo de tudo. Estava com meu bodoque, feito de uma forquilha de pitangueira e borracha de câmera de caminhão, bem grossa, sem nenhum risco no cabo. Todos, sempre que matavam algum animal, faziam um traço com canivete na madeira crua. O meu estava liso.

A mata era fechada e muito verde, principalmente na época da primavera. Era um lugar permitido, pois ficava perto de onde morávamos. Cheguei lá disposto a terminar com minha inferioridade. Haveria de usar o canivete muito afiado, que levava nas meias para qualquer eventualidade. Sabe-se lá, havia muitos inimigos, eu é que nunca encontrei nenhum - sorte deles.

Peguei no caminho uma pedra redonda, nem grande nem pequena, pesada o suficiente: a pedra ideal. Entrei pelas trilhas já conhecidas e fui até um lugar escondido, perto de um barranco de cerca de dois metros. Lá embaixo, corria um fio de água. Sentei e permaneci em silêncio. Armei o bodoque com a pedra e me aliei ao tempo. Em breve algum pássaro viria beber água. Não demorou mais que minutos e lá estava ele: pequeno e faceiro, amarelo vivo nas asas e azul muito escuro no peito. Chegou meio desconfiado, somente nos galhos altos, pulando rapidamente entre um e outro. Permaneci imóvel. Ele foi criando confiança até que cedeu à sede e parou perto de mim, muito perto. Ficou mexendo a cabeça nervosa - e com razão de estar - como se pressentisse algo. Cheguei a ver seus olhos cheio de vida. Calmamente aprontei minha arma. Estiquei a borracha junto ao rosto o máximo possível, alinhada com olho fechado, e larguei.

Agora, cinquenta anos depois, sei a razão desta lembrança estar tão viva. Hoje devo receber o resultado dos exames, da biopsia, para ser mais claro. Parece que tudo que fiz neste meio século não foi importante. Que o resultado, já está escrito com uma letra fria e pontilhada, depende do desenrolar da história do pássaro e não da minha. Então, se é assim, deixe-me terminá-la.

Larguei e ouvi o zunido assassino e rápido. A pedra dilacerou a cabeça do pequeno pássaro. Olhei-o caído no barro com certa curiosidade. Peguei meu canivete e, quando ia marcar o cabo do bodoque, desviei o olhar para ele novamente. Pulei para ficar ao seu lado. Senti-me estranho. Fiz um enterro com direito a cruz e tudo. Pus umas pedras protegendo o lugar e garanto que estão lá até hoje. Neste dia aprendi a chorar de uma forme diferente e não marquei a madeira. Nunca usei meu canivete.

O resultado deu positivo: maligno.



O Ilustre e Imprescindível Investigador Alcebíades.

Chegou em casa satisfeito, carregando nas mãos o pesado troféu e embaixo do braço direito a caixinha azul, que guardava uma placa toda em ouro - homenagem da Prefeitura da cidade de São João do Porto ao seu mais distinto investigador.
Alcebíades era seu nome, e nos últimos 22 anos ajudara a pequena comunidade de nove mil habitantes, ao sul de Itararaguá, a manter a moral e a ordem, prendendo criminosos hostis que insistiam em perturbar a paz daquele povo tão pacato e feliz.
Primeiro foi aquele pobre infeliz, o Anastácio, homem trabalhador, assassinado a tijoladas pela amante jovenzinha, que estava grávida. Crime hediondo, um dos primeiros a arrancar o sono dos moradores, que até então só haviam visto violência e assassinatos pela televisão.
Nessa época, Alcebíades era ainda um jovem policial que iniciava sua carreira de investigador. Mal assumiu o posto e já se viu obrigado a resolver tão complexo caso, veja só.
E pouco mais de oito meses depois, outra vítima, outro crime aterrorizante: desta vez uma menininha, Carmelita, morta de jeito tão cruel pelo próprio pai!
São João do Porto foi parar até no Jornal Nacional, e não fosse a presteza e a habilidade de Alcebíades, até hoje os assassinos estariam à solta, representando enorme perigo à população tão idônea.
Seguido deste, outros crimes horríveis assolaram a cidadezinha nos anos seguintes: um morador de rua, queimado vivo por um viciado em drogas. Uma senhora já idosa, que todos os dias levava seu cachorro para passear na pracinha, acabou esquartejada junto de seu animal de estimação pela ex-empregada, que reivindicava mais dinheiro pelos serviços prestados. Uma estudante foi esfaqueada brutalmente pelo ex-namorado. Uma professora apanhou até a morte de um aluno, que dizia estar por ela apaixonado.
Não se sabe o que teria sido da comunidade, caso não pudessem contar com a eficiência de Alcebíades que, com um faro impressionante, descobria os mais obscuros e intrincados detalhes, encontrando provas em minúcias que passariam despercebidas para qualquer outro investigador.
Menos para ele.
Alcebíades comprovou que crimes perfeitos não existiam.
Não se ele estivesse no comando.

Ligou a luz da sala e acomodou o troféu em cima da estante, junto de outras medalhas e condecorações que recebeu ao longo de seus vários anos de serviços prestados. A placa em ouro colocou sobre a mesa de centro, e sentou no sofá para admirar o reconhecimento de seu trabalho.
Sorriu.
Era um cidadão honorário, homem de bem, respeitado e adorado. Poderia até se lançar para prefeito, se quisesse. Venceria facilmente, todos o consideravam um herói.
Um homem que prezava pela retidão e pela ordem.
Não fora fácil.
Chegara na cidadezinha com pouco mais de 29 anos, louco para trabalhar e mostrar sua habilidade para desvendar crimes, tal e qual via no cinema e nos seriados de televisão.
Para isso se tornara investigador: queria encontrar os assassinos, os bandidos, os criminosos, e colocá-los atrás das grades. Queria fazer justiça, as pessoas precisavam de justiça.
Precisavam ver os culpados punidos para continuarem com suas vidas seguras e felizes.
E ele estava ali para isso.

Acontece que São João do Porto não era exatamente a cidade que Alcebíades imaginava para firmar sua carreira brilhante de investigador policial. Tentou durante quase um ano transferência para uma cidade maior, mais violenta, mais emocionante, mais caótica.
Não conseguiu.
Só por isso, precisou cometer os crimes que iria, então, investigar.
E desvendar.

Não era um assassino, era um investigador, disso tinha certeza.
Mas que culpa tinha ele se haviam restringido toda sua perícia e genialidade a uma cidadela que não precisava nem de uma coisa nem de outra, pois não havia crimes, muito menos criminosos?
Até que foi relativamente fácil.
Cidade pequena, gente sem ter o que fazer, sabem como é: todo mundo fala da vida de todo mundo.
Com sua esperteza, logo encontrou quem poderia, potencialmente, ser seu criminoso.
E também quem seria a pobre vítima da vez.
Até por que, qualquer pessoa tem um motivo para matar e outro para morrer. Ele apenas uniu o útil ao agradável.
Assim todo mundo ficava feliz: ele tinha crimes para investigar, e os criminosos sequer precisavam se dar ao trabalho de matar – ele próprio se encarregava disso.
Isso sem falar na comunidade, que se sentia protegida graças a sua astúcia.
Olhou outra vez para a placa de ouro, reluzente, nela gravada em letras garrafais:

Ao nosso ilustre e imprescindível investigador Alcebíades Andrade,
pela competência, honra e coragem,
sempre em busca da proteção e da integridade
de nossos cidadãos.


Sorriu.
Era o ilustre e imprescindível investigador Alcebíades Andrade.
Sim.
Estava satisfeito.

Jana Lauxen escreve: http://www.janalauxen.blogspot.com/, http://e-blogue.com/blogs, http://www.3ammagazine.com/brasil, http://cafeespacial.wordpress.com/, http://www.jornalvaia.com.br/ e http://www.becodocrime.net/
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O gato de Alice.

O riso nervoso, histérico, doente, ecoava no ar do lugar. Por mais que eu olhasse em volta, por mais que procurasse, não saberia dizer de onde vinha aquele som, onde estava oculta a fonte daquela sinfonia insana. Procurava ignorar aquilo. Tinha muito trabalho a fazer e não havia mesmo para onde ir enquanto não acabasse a tarefa. O porão inteiro já estava limpo e arrumado, já havia cavado o suficiente, o entulho de piso quebrado e da terra removida já haviam sumido. Agora faltava a parte mais delicada, o acabamento.
Uma obra simples, sem nada de especial ou técnico. Eu daria conta, certamente. Precisei só de um pouco de planejamento e alguns dias de trabalho braçal. Nada que fosse me matar. Estava tudo preparado e eu podia terminar com chave de ouro. Se não fosse a maldita gargalhada, seria tudo perfeito.
Por um momento, achei que meu cérebro estivesse me enganando, pregando alguma peça de péssimo gosto. Mas não. Isso não seria possível. Simplesmente não seria. Fiquei imaginando um jeito qualquer de inserir aquele som no ambiente, tão pouco adequado para um riso daquela natureza. Acabei por pensar que poderia ser uma espécie de gato da estória do Carroll, a estória da menina Alice, só que num lugar bem menos maravilhoso. O riso do gato de Alice. O riso insano.
Escolhi ignorar o som. Já tinha uma fonte, uma procedência, mesmo que pouco natural. Ficaria mais fácil fazer de conta que não existia, transformar aquilo num ruído incidental. Continuei misturando a pasta cinza com muita, muita calma. Queria um resultado absolutamente perfeito. A nova luz instalada no porão deixava ver tudo com grande clareza. Cada detalhe precisava estar fantástico, cada passo. Por isso tanto cuidado em misturar a massa, eliminar as eventuais bolhas de ar, deixar a aparência totalmente lisa, uniforme.
Quando estava absorto em minha tarefa, percebo que o riso não havia sumido. Mesmo com a música alta, mesmo com o barulho metálico produzido pelas ferramentas, o riso estava lá. Não havia como. Teria que trabalhar com a estranha risada ao fundo. E, pensando bem, seria mais um toque de requinte. O riso insano se transformou num ótimo contraponto para os olhos arregalados da mulher que agora estava no interior do buraco cavado com tanto cuidado. O azul dos olhos e o cinza da fita que cobria a boca, e o cinza do cimento que eu derramava sobre o corpo devagar, e os sons de pânico mudo que ela tentava emitir sem poder. Foi então que percebi que o riso... horror... o riso partia de mim.

Denise Ravizzoni escreve: http://sexoecrimecialtda.blogspot.com/ - http://e-blogue.com/blogs - http://www.3ammagazine.com/brasil - http://www.becodocrime.net/ - http://deniseravizzoni.blogspot.com/
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