As cabeças rolarão, não haverá piedade, clemência ou salvação. Contato e envio de textos: cabecascortadas@gmail.com
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Fome.

Santos tinham visões porque jejuavam. Nada de divino, poderoso, extraordinário. Pura e simples inanição. Falta de nutrientes, hipoglicemia. Dias e dias sem comer resultavam em miragens, algo como sonhar colorido de olhos bem abertos. Os profetas tinham revelações da fome.
Ela sentou-se à janela olhando o azul bruto do céu e perguntou a ninguém se outras fomes poderiam provocar alucinações. Períodos longos de privações afetivas produziriam algum tipo de ilusão sensorial? Anos de sexo sem orgasmo fariam que tipo de efeito psicodélico surgir de repente, do nada? Não sabia. Intuía que coisas nela haviam mudado, acontecido. Sabia por que tinha tido visões. Na primeira vez, achou que fosse apenas um desmaio seguido de um estranho sonho desconexo. Nas outras três, houve apenas o medo, seguido de uma inexplicável calma interior.
Pensava se estaria louca, insana, alguma coisa embolorando dentro do cérebro. Não! Suas capacidades respondiam perfeitamente às necessidades. Tudo normal. A mutação ocorrera, era fato. Porém, nada de externo a denunciava como diferente. Nada mostrava ao mundo ser ela a nova profetisa do grande vazio, mártir caótica sem inquisição, santa sem hordas em procissão ou prece.
Sabia só que tinha um propósito, uma missão. Sem cultos, templos, nem fiéis. Apenas uma tarefa a cumprir em gratidão ao dom recebido. A quem servia? Isso ela não sabia. Talvez a nada, a ninguém. Mesmo assim, seguia em frente no que se tornara o trabalho da sua vida. Tarefa solitária, lenta, desalentadora, mas dela.
Voltou a cabeça quando percebeu que o som da água que caía do chuveiro havia cessado. A porta se abriu e viu que ele surgia sorridente no quarto, vindo do banheiro. Ela também sorriu. Ele abraçou-a. Ela o beijou com enorme doçura e se abriu para recebê-lo em sua vagina repleta de novos e afiados dentes.
Contato com a autora: denise_ravi@hotmail.com

O gato de Alice.

O riso nervoso, histérico, doente, ecoava no ar do lugar. Por mais que eu olhasse em volta, por mais que procurasse, não saberia dizer de onde vinha aquele som, onde estava oculta a fonte daquela sinfonia insana. Procurava ignorar aquilo. Tinha muito trabalho a fazer e não havia mesmo para onde ir enquanto não acabasse a tarefa. O porão inteiro já estava limpo e arrumado, já havia cavado o suficiente, o entulho de piso quebrado e da terra removida já haviam sumido. Agora faltava a parte mais delicada, o acabamento.
Uma obra simples, sem nada de especial ou técnico. Eu daria conta, certamente. Precisei só de um pouco de planejamento e alguns dias de trabalho braçal. Nada que fosse me matar. Estava tudo preparado e eu podia terminar com chave de ouro. Se não fosse a maldita gargalhada, seria tudo perfeito.
Por um momento, achei que meu cérebro estivesse me enganando, pregando alguma peça de péssimo gosto. Mas não. Isso não seria possível. Simplesmente não seria. Fiquei imaginando um jeito qualquer de inserir aquele som no ambiente, tão pouco adequado para um riso daquela natureza. Acabei por pensar que poderia ser uma espécie de gato da estória do Carroll, a estória da menina Alice, só que num lugar bem menos maravilhoso. O riso do gato de Alice. O riso insano.
Escolhi ignorar o som. Já tinha uma fonte, uma procedência, mesmo que pouco natural. Ficaria mais fácil fazer de conta que não existia, transformar aquilo num ruído incidental. Continuei misturando a pasta cinza com muita, muita calma. Queria um resultado absolutamente perfeito. A nova luz instalada no porão deixava ver tudo com grande clareza. Cada detalhe precisava estar fantástico, cada passo. Por isso tanto cuidado em misturar a massa, eliminar as eventuais bolhas de ar, deixar a aparência totalmente lisa, uniforme.
Quando estava absorto em minha tarefa, percebo que o riso não havia sumido. Mesmo com a música alta, mesmo com o barulho metálico produzido pelas ferramentas, o riso estava lá. Não havia como. Teria que trabalhar com a estranha risada ao fundo. E, pensando bem, seria mais um toque de requinte. O riso insano se transformou num ótimo contraponto para os olhos arregalados da mulher que agora estava no interior do buraco cavado com tanto cuidado. O azul dos olhos e o cinza da fita que cobria a boca, e o cinza do cimento que eu derramava sobre o corpo devagar, e os sons de pânico mudo que ela tentava emitir sem poder. Foi então que percebi que o riso... horror... o riso partia de mim.

Denise Ravizzoni escreve: http://sexoecrimecialtda.blogspot.com/ - http://e-blogue.com/blogs - http://www.3ammagazine.com/brasil - http://www.becodocrime.net/ - http://deniseravizzoni.blogspot.com/
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Luz na noite (SOCORRO).

Quase madrugada. Naquela hora particular, depois da meia-noite e antes das duas da manhã, em que as ruas ficam muito, muito quietas. Uma quarta-feira. Aquele silêncio ainda leve, como se a noite estivesse se preparando para entrar no período R.E.M. do seu sono escuro. Era nessa rua que ela caminhava, ouvindo o som dos saltos da bota batendo na calçada úmida, escorregadia – chuva fina. Friozinho de começo de inverno. Gostava de noites assim. Era estranho que estivesse na rua a uma hora dessas, mas acontece que se atrasou. Simplesmente perdeu a noção do tempo na casa dos amigos. Sua casa era perto. Resolveu voltar caminhando. Achou que não seria perigoso. Dava-se bem com o silêncio das ruas vazias. Além do mais, o trecho era bem iluminado.

Enquanto andava e respirada o ar frio, observava as luzes piscantes do semáforo na esquina, lá adiante. Durante as madrugadas, nada de troca de cores. Nada de vermelho. Nada de verde. Só o amarelo em intervalo s curtos e regulares. Como um contador de tempo. Quase um retrato em branco e preto com o toque da luz em amarelo. E uma luz nova chega ao seu cenário de filme noir. Vindo em sentido contrário, umas três quadras adiante, uma mancha vermelha e dois faróis projetando uma luz forte nos pingos da chuva fina. Havia algo de estranho, o carro vinha rápido demais. Entrava na curva da esquina como se estivesse solto, flutuando na pista. Por um segundo, ficou apenas olhando, observando, acompanhando com olhos atentos a trajetória esquisita do automóvel. Só depois entendeu. O motorista havia perdido o controle. O carro estava capotando.

Um passo de recuo. Colou-se ao muro gelado bem rente à fachada de um prédio. Medo que o carro voasse em sua direção. Mas não foi isso o que aconteceu. A pista úmida se encarregou de jogar o carro contra um poste. O motorista foi projetado pelo vidro frontal. Ela ouve o som da freada brusca na entrada da curva, o som do carro capotando e batendo as ferragens no poste, o som dos vidros quebrados. Segundos que pareceram horas. E, logo depois, silêncio abissal. Foi se aproximando aos poucos da pessoa que havia atravessado os vidros. Era um homem. Um homem jovem. O rosto muito ensangüentado. Cacos de vidro por toda a parte. Ajoelha-se perto do homem. Ela está consciente. Deitado no asfalto frio, a malha clara começando a ficar molhada e já pintada de vermelho. Ela estende a mão e toca de leve a testa do homem, que diz, com muita dificuldade:

- Me ajuda...

Ela não responde. Não consegue. Fica ali, bem perto, observando os olhos escuros do homem, muito abertos, fitando-a com desespero, dor e ansiedade. Ela inclina um pouco a cabeça para o lado, chega mais perto para examinar melhor. Sente a respiração entrecortada do homem. Pensa que deve ter quebrado alguns dentes ou o osso do maxilar, já que o rosto estava estranhamente desfigurado. O homem tenta mover a mão em sua direção, mas não consegue. Tenta falar mais alguma coisa, mas da boca sai apenas um estranho gorgolejar e um jorro de sangue escuro, brilhante, espesso. Continua ali, fascinada, hipnotizada pela cena, as rodas do carro viradas para o ar da noite e ainda girando, o homem de blusa clara deitado no chão escuro. Ela sorri de leve e chega ainda mais perto, mais perto. Sente o hálito quente do homem na pista. Cheiro de álcool, ela pensa. Talvez tenha bebido muito. Mas isso não vinha ao caso. Ela tinha um espetáculo único, exclusivo, e estava aproveitando cada momento. O homem parece fazer grande esforço e consegue erguer um pouco a mão, toca em seu joelho, e meio que fala, meio que grunhe:

- Socorro.

Ela sorri novamente. Percebe o brilho dos olhos dele levemente alterados. Os braços se debatem por uns segundos para, logo depois, ficarem estáticos, imóveis. O olhar muda, fica vazio. Ela se aproxima novamente e sente que não há mais suspiro, gorgolejo, movimento respiratório, nada. Ele está morto. Só então ela enche os pulmões de ar, olha em volta e grita, com todas as suas forças:

- Por favor, alguém ajuda aqui!


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Olimpo.

Deuses sempre foram cruéis. Os gregos e todos os outros. Zeus, o ‘big boss’ era mulherengo e manipulador. Gostava de engravidar mortais gostosas e se divertia jogando uns contra os outros seus pares de pantheon.
Mitos. Cercados de mitos. Somos mitos também? Mulheres com cabelos de serpentes, éguas canibais, labirintos habitados por criaturas estranhas, rios murmurantes e bichos de cem cabeças. Nada diferente dos dias de hoje.
Chego atrasado à consulta. Droga. Pago pelos minutos em que não estou presente também. Justo? Quem disse que o mundo é. Porque a mulher que ouve o que digo e diz estar me tratando seria exceção? E lá vou eu, com cara de culpa já na entrada, sorrisinho sem graça, pedir licença. Ela sorri sem mostrar os dentes e faz sinal para o sofá.
- Está 10 minutos atrasado. Mas hoje posso compensar no final.
Surpresa. Nem sempre tenho razão.
Hera foi uma vaca ciumenta. Suportava as traições de Zeus e depois se esforçava em punir as amantes do marido e seus filhos, como fez com Hércules. Afrodite, a bela, traiu seu marido Hefesto com o guerreiro Áries. Por sua vez, Hefesto era manco por culpa de Zeus, que certa vez o lançou ao solo porque o filho – sim, Hefesto era seu filho – tomou o partido da mãe Hera durante uma discussão.
Sento, me ajeito como posso e entendo que a sessão começou.
- Não foi intencional. O trânsito estava ruim, o ônibus ficou retido.
- Você acha que penso ter sido sua intenção?
- Não penso nada. Só estou dizendo que não foi.
- Você está justificando sem motivo, então?
- Olha, não estou justificando. Não me faz sentir como se estivesse na porra do jardim de infância. Foi só um comentário. Pessoas fazem comentários.
- Os meus comentários estão irritando você?
- Não estou irritado, só disse que cheguei atraso. Merda, tudo tem um significado oculto pra você?
- Você pensa que há mensagens ocultas, códigos, em meio às frases que usa?
- Olha, pára com isso. Estou tentando manter uma conversa, certo? É melhor começarmos logo a porcaria da sessão.
- Reações defensivas. Não estou acusando você de nada. Apenas observando a escolha do seu vocabulário.
- Vai pro inferno, você e seu maldito vocabulário – eu grito, com raiva, até quase estourarem as veias da minha garganta. E a luz se apaga.
Os Titãs chegaram antes dos deuses. Travaram uma guerra violenta e os deuses levaram a melhor. Os cretinos prenderam os Titãs nas profundezas. Prometeu foi condenado a ter o fígado comido todos os dias por uma águia porque entregou o fogo aos humanos. Chronos devorava sua prole. O inferno dos gregos tinha três andares.
Acordo com a garganta seca, os lábios quase colados. Nenhuma saliva, o sol ainda não aquece. Febre, a febre comendo meus olhos por dentro. Um gosto estranho, muito estranho. Estava na cama, mas com a roupa que usei ontem durante o dia todo. Há sangue na camisa. Na mão, ainda tenho a pesada e cara caneta de ouro que usei para perfurar por doze vezes a garganta de Aurora, a psiquiatra. Uma estocada para cada morador do Olimpo. Encerrei o tratamento. Declarei-me paciente em alta.
Poseidon segurava um tridente e governava as ondas do mar de acordo com seu humor.

Denise Ravizzoni escreve:
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