As cabeças rolarão, não haverá piedade, clemência ou salvação. Contato e envio de textos: cabecascortadas@gmail.com
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Jornais no parque.

Um homem precisa de inspiração sempre. Garoava e fazia muito frio. A fumaça do cigarro, do café e meu hálito quente misturavam-se no ar. O apartamento estava repleto de uma energia boreal. A serração e a chuva fina que o céu urinava davam um toque funesto que desesperançava meu cão interior. Vesti o casaco de couro, o jeans rasgado e o velho coturno de sempre. Respirei fundo, o ar frio abriu meu pulmão. Tive a impressão de que as gotículas de umidade que adentravam pelas minhas ventas congelavam dentro de meus alvéolos perdurados pela nicotina. A rua me recebeu com um vento insolente, cruzava enquanto raspava minha careca sem educação alguma. Tanto que a porta bateu e o vidro quebrou. Atravessei a praçinha sem graça e tomei o rumo do grande parque central da cidade.
Pelo caminho, a chuva fina desenhava riscos aguados em meu casaco ralado. O crivo respingado logo perdeu o filtro, quebrou entre meus dedos melecados da vida. Sentia que a escuridão me abençoava sem medo. As folhas no chão estavam amareladas, desidratadas pelo corte da seiva, pareciam comigo, sugadas. Meu espírito fantasma vagava devagar. Meus olhos murchos encaravam a paisagem com tudo que ela me dava. Os carros passavam como tartarugas no meio de uma grande confusão. Invadi o espaço mínimo entre eles e atravessei a avenida para chegar até o passeio. As pessoas estavam com seus guarda-chuvas nas mãos, encarangadas, enrugadas como o couro de um lagarto. Eu até sentiria pena, se pudesse.
Avistei a copa das árvores por entre os prédios, a imagem riscava um fundo verde escuro. Olhava o caminho por debaixo das marquises embolado como as ruas atravancadas de automóveis. Andava afastado dessa linha imaginária que a maioria preferia e sentia calor, tomando pingos na cara fechada. A ternura não me cai bem. Cheguei e fui até o banheiro. As merdas no chão e os rabiscos nas portas e nas paredes me deram de bel ver. Saquei o pau e urinei. Ah, que alívio. Subia fumaça do mictório congelado, parecia vapor.
Ganhei a porta e avistei o chafariz vazio de água e cheio de folhas de jornais desmontados e abandonados. Olhei o banco azul todo chuviscado e rumei para ele. Sentei e acendi um cigarro. Fiquei sentindo o vento que balançava os galhos e minhas idéias. Os caminhos por entre o parque estavam vazios como meu coração. A queda livre da temperatura fazia o termômetro eletrônico da calçada instável. A cada grau despencado o dia ficava mais interessante. Aos poucos o vento ganhava força. Como um guerreiro incansável, apoiado pela garoa constante que riscava a paisagem de fiapos brancos em fundos coloridos, de acordo com a parede mofada de cada construção.
Notei a presença do diabo. As folhas de jornais passaram a voar em bando, lentamente para o alto. Giravam em ciranda de criança triste como jamais vi. Fisgado pela imagem, afanei mais um crivo do maço amassado em meu bolso. Traguei e soltei um feixe vaporoso, fazia uma cor bonita em frente do preto e branco dos jornais endiabrados que bailavam antes do fundo que a cidade revelava. Era uma dança infinitamente tocante. Os jornais decolavam a partir do centro do chafariz como urubus, alguns partiam para longe, outros pousavam na galhada das árvores e mexiam com a força do vento num vai e vem sonolento.
O tempo fechou ainda mais. Os jornais ganharam ainda mais altura, por causa do vento que aumentava de velocidade a cada segundo. O bando tornava-se cada vez mais numeroso, estava abandonado por Deus e a mercê dos urubus que imaginava. Chegou o momento de o meu cigarro desfalecer, assim que joguei a butuca, a danada correu até a beira do esverdeado cisne de cimento que não cuspia água para encher o chafariz. Minhas meninas encontraram um sapato de camurça em tom amarelado, rebocado de barro na sola. Fiquei firme. Alguns minutos depois, já não havia mais jornais dentro do chafariz, pois todos eles ganharam vôo. Era o diabo espantando os sombrios. Foi quando mirei o centro do chafariz e encontrei o menino. Sangrava na garganta e os olhos dele permaneciam perdidos no sem fim, tão frio quanto o dia e sem nenhuma manchete sobre ele. Levantei sem reação em meu semblante, era hora de voltar e pintar um pouco.
Contato com o autor: afoborio@gmail.com

Infiel.

A vida de um novo autor é dureza. Estava em dificuldades e minhas economias pela metade. Apelei. Fechei o negócio com um corretor de imóveis online. A casinha ficava numa cidadezinha que não exigia grandes rendimentos e me livrava do alto custo de vida na metrópole. Vi algumas fotos do casebre, paguei e mudei. Tomei o ônibus em menos de uma semana.
Embolei a garganta logo que Cheguei. A urbezinha exalava cheiro de poeira, o tempo dava a impressão de que não corria e tudo parecia morto. Até o sol estava sem vida por aquelas bandas. Olhei para os lados e vi aquele bar escuro, não havia ninguém atrás do balcão, acho que não existia um número suficiente de fregueses capaz de preocupar o responsável pelo atendimento. O guichê das passagens também estava vazio, acho que o fluxo de passageiros também não era aceitável para manter o atendente atento em seu posto.
O chão era sujo e o motorista do ônibus fazia cara de tédio enquanto esperava pelo horário de seguir. O cobrador desceu com calma para ver se havia alguma encomenda, foi a primeira vez que o vi tão lento desde que entrei naquele transporte, o cara parecia intoxicado por uma poção lerda, pesada. Quando o cobrador voltou, apresentei o bilhete e retirei minha bagagem. A terra era vermelha, grudava na barra da calça e na mochila.
Foi quando o ônibus partiu sem nenhum passageiro novo e sem nenhuma nova encomenda. O motorista e o cobrador pareciam aliviados pela partida. Fiquei olhando o ônibus sumir por entre a poeira que subia do chão. O vento era frio, não havia ninguém pela rua, era estranho, ainda mais para um homem que veio da agitação da cidade grande. O tempo estava emburrado, mesmo assim todo aquele marasmo me parecia exacerbado para uma sexta-feira de tarde. E depois, com ou sem ventania, todos precisam ir e vir o tempo todo e por vários motivos.
Minha garganta seca me provocava para que entrasse no bar, mas estava receoso, era tudo tão feio e abandonado que num primeiro momento hesitei. Permaneci parado por alguns instantes, estava na dúvida entre ir para meu novo lar ou esperar que o tempo decidisse o que queria, por que sempre odiei andar embaixo de chuva, por isso temia em me arriscar pela rua.
Olhei mais uma vez em volta e o vento me surpreendeu de novo, encheu minha garganta com aquela terra de que falei. O gosto de barro tomou conta de meu paladar, não havia outro jeito, por isso tive de entrar no bar. Vi a mulher sentada na mesa - quase imperceptível, por causa da penumbra que afrontava a grande porta lateral - com uma máquina de calcular bem ao lado de um calhamaço de dinheiro.
- Bom dia. - falei, meio sem jeito, tentando me fazer visível, depois de permanecer em pé ao lado dela por mais de 5 min.
Ela não respondeu.
- Oi. Preciso de uma água. - chamei novamente.
A gorda levantou calada, contornou o balcão e alcançou uma garrafa 600 ml.
- Dois reais. - foi o que ela disse, enquanto me olhava de olhos arregalados, como se visse um fantasma.
Paguei e tratei de sair logo dali. Afinal de contas, o comitê de boas vindas não foi agradável. O comportamento da mulher me aborreceu, pois a meu ver, uma terra santa deveria ter pessoas muito mais espirituosas. Talvez fosse por isso que o semblante do motorista e do cobrador era de alívio durante a partida. Quando coloquei o pé na rua, minhas costas doíam. Credo, que energia parada, pesada, porra, caralho, que coisa, fiquei pensando, tomara que isso tudo tenha sido apenas uma má impressão.
Acendi um cigarro e procurei um taxista, a ventania aumentava e o céu ameaçava despencar. Não achei. Bem, numa cidade vazia como aquela, a presença de um chofer era algo realmente improvável. Incomodado e conformado, respirei fundo e decidi correr o risco de chegar encharcado. A primeira tragada embolou com a terra e notei um rastro de fumaça em marrom com vermelho brotando de minhas ventas. O meu crivo vagabundo parecia ainda mais forte, por causa da mistura do alcatrão e a nicotina com aquela poeira que a refega esparramava.
Saquei o papel do bolso para conferir meu novo endereço. Andei algumas quadras e vi uma torre enorme, com mais de quarenta metros e uma grande igreja em frente de uma praça tão imensa quanto a tal da torre e a igreja. Um santuário gigante. Estranhei algo daquele tamanho em um lugar tão abandonado e pequeno, mesmo tendo a fama de terra santa.
De repente, um susto. Uma voz que parecia vir do além seqüestrou minha atenção. Era tão distante e tão fria que por um minuto achei que estava delirando. O recado vinha embalado numa música instrumental e fúnebre: “Comunicamos o falecimento de Pedro das Quantas, seu corpo será velado na capela mortuária a partir das 19h. Oremos por nossas almas e por essa que encomendamos ao céu. Amém.” A música foi baixando de volume e tudo silenciou.
Fiquei tão encafifado que me plantei pensando e admirando a torre gigante. Quando meu transe passou, olhei para a esquina e vi o número 666 no outro lado da rua, era ali, uma construção tão simpática quanto nas fotos que o corretor me enviou por e-mail. Sinal de que foi correto comigo. Estranhei que o portão estava aberto. Eu nem lembrava quando vi um portão sem cadeado na vida.
Adentrei com o pé direito, estava limpa, a mobília chegou intacta e foi disposta exatamente como indiquei aos homens responsáveis pela mudança. Ufa, já me sentia quase contente. Conferi as torneiras e jorrou água. Tomei um copo e percebi que era pura como eu jamais havia experimentado. Adorei. Bebi mais dois copos gigantes. Fui para o chuveiro. A poeira grudou em mim de um jeito que não havia saída. Foi o banho mais longo de toda minha vida.
Limpo, fui para a sala. Acendi um cigarro e abri as janelas. Entre uma tragada e outra, notei uma grande movimentação de carros. Pensei que fosse um bar do outro lado da rua. Tive a idéia de sacar meu litro de uísque da mochila, meu plano era encher a cara e depois sair para dar uma olhada no lugar e quem sabe descolar um corpo para me enroscar, já que a tempestade ficava só na ameaça.
Coloquei um DVD do Pink Floyd. Que maravilha, finalmente um pouco de diversão, pensava enquanto ouvia e via as crianças destruindo as carteiras escolares para depois rumarem para aquela máquina gigante que transformava os pestinhas em carne moída. Quando o relógio bateu 21h estava mais louco que nunca e fui para a rua. Percebi que os carros não paravam de chegar e se amontoavam na esquina, opa, me dei bem, pensei.
Assim que me aproximei notei que se tratava de um velório. Foi quando juntei uma coisa com a outra e deduzi que o lugar era o local anunciado pela tal voz misteriosa. Achei melhor voltar para casa. Entrei e fui direto para a cama, estava alto e desapontado, queria dormir para acordar pela manhã de humor e vigor renovados. Nem os sapatos eu tirei.
Acordei perto das 9h, o sol adentrava pela fresta da janela e avisava que o tempo estava ótimo. Ainda sonolento, tive a impressão de ouvir uma música católica. Saí da cama azedo, com a cabeça doendo, escarrei no chão e blasfemei. Joguei a culpa pelo azedume no uísque da noite passada e no despertar nojento. A boca estava com um gosto horrível. Acendi um cigarro e preparei meu café. Abri as janelas e a música soou ainda mais alta. Olhei para os lados e avistei uma porção de gente caminhando para a igreja. Foi quando me dei conta de que a torre da basílica interagia o tempo todo com os moradores do lugarzinho.
As pessoas que passavam pelo passeio me olhavam de um jeito estranho e não mostravam os dentes. Acho que meu visual chocava os caras. Era muito engraçado. De repente a música cessou, voltei para a cama e apaguei. Dormi até o final da tarde, quando despertei mais uma vez com o sistema de som da torre que avisava mais um recado: “Comunicamos que a missa em celebração da família será realizada amanhã, às 19h. Cordeiro de Deus, que tirai os pecados do mundo; dai-nos a paz. Amém.”
Fiquei roxo de raiva. Será que todos aqui são católicos? Pensei. Passei trinta dias nessa rotina, morria um por semana e a torre avisava. Os recados eram infinitos, nada de proveitoso era comunicado, ou era um falecimento ou uma celebração da igreja. O padre não calava a boca, estava sempre cheio de recados repetidos. E para piorar a situação, não conseguia escrever meus textos e enviá-los para os jornais e revistas que tinha compromisso. Meu editor havia ligado várias vezes, precisava concluir meu original de uma vez. Fiquei dias sem dormir para tentar escrever, mas toda hora que me acalmava e a inspiração voltava, surgia um daqueles recados lamentáveis, que me deixavam nervoso e sem inspiração novamente. Era um ciclo vicioso.
Pensei em matar o padre, sim por que era ele quem dava os recados incessantemente. No entanto, sabia que em poucos dias haveria um novo sacerdote na cidade e o problema voltaria, tinha de pensar em algo melhor, mas em quê? Até que veio uma idéia. Já sei! Preciso matar todos os católicos dessa cidade, desse jeito, esse serviço de alto-falante vai acabar pela falta de fiéis. Soltei uma gargalhada mórbida, tão gelada que cheguei ao ponto de me olhar no espelho e me impressionar com meu novo e estimulado semblante. Minhas feições eram insanas como nunca, mas o gosto de sangue que surgia em minha boca e os assassinatos que via eram divinais e provocavam uma reação muito boa em meu cérebro. Foi a primeira vez que o hediondo me gerou prazer, eu juro. Sinestesia mais que pura.
Precisava agir sozinho, por que se conseguisse um comparsa, ele poderia abrir a boca, caso fosse interrogado pela polícia. Eu não podia correr esse risco. Pensei mais um pouco e solucionei o impasse. Acessei a rede e comprei um filhote de cão pela internet. Ele faria o trabalho sujo. Só tinha de criá-lo isolado e depois soltá-lo na cidade. Acertei tudo rapidamente. Quando chegou, o tranquei dentro de uma caixa de madeira totalmente fechada, a única abertura ficava entre a base inferior da porta e o assoalho, nada maior que 10 cm. Eu não o via crescer e ele não me via alimentando-o com carne vermelha. Cinco meses depois, percebi as rosnadas vindas de dentro da tal caixa. O animal estava forte e insano. Era hora de libertá-lo.
Esperei a missa das 18h para soltar o cão. Quando percebi a movimentação em frente da igreja, fiquei ao lado da caixa e abri a porta. O danado saiu correndo exatamente como previ. Dava para ouvir os gritos na rua. Os dias seguiram cheios de ataques. Os recados que vinham da torre comunicavam a morte de pessoas estraçalhadas pelo animal. Aos poucos o caos tomou conta do lugar. O bicho era esperto e fugia para a mata depois de cada investida e transformava-se num caçador sanguinário, esperto e implacável. A população local se mobilizou, a prefeitura e a polícia, tudo em vão, o animal era uma máquina de matar.
A partir daí os recados me davam um gosto cada vez melhor na boca, e as imagens eram ainda mais fenomenais, eu nem me importava de ser acordado pelo alto-falante da torre. A sinestesia me era mais apetitosa que nunca. Enquanto as mortes aconteciam, minha inspiração voltou a toda e minha carreira profissional estabilizou novamente, por que eu transformava os ataques do cão em contos incríveis. Tudo com base nas sensações que sentia, misturadas com os recados do padre e as manchetes veiculadas pelo jornaleco do lugar.
Era uma pena ter de matar aquelas pessoas, mas o escritor dentro de mim não poderia morrer só por causa da fé católica. Em poucos dias, a população foi dizimada e o alto-falante finalmente perdeu a função. Daí para frente, decolei em meio ao perverso silêncio que se abateu sobre meus dias. A essa altura a sinestesia me era muito mais prazerosa que o sexo. Logo que enviei meu novo livro de contos, recebi uma posição.
Era meu editor do outro lado da linha:
- Alô.
- Carlos, seu novo livro de contos é tão malvado quanto funesto. Já está em fase de diagramação e logo será impresso. Até mais, amigo.
Desliguei e sorri macabramente. Foi o prazer mais impetuoso que senti. Naquele momento minha sinestesia era forte como a morte. De repente, ouvi um rosnar, era o amaldiçoado cão, que baixou as orelhas e veio até mim, deitou e lambeu meu coturno em sinal de devoção. A partir daí saí em odisséia pelo mundo, para promulgar minha literatura maldita. Seis meses depois estava gélido e maltrapilho, a pisar solos santos e carcomer carne católica, mas sempre, sempre ao lado de meu cão assassino. Um ministério arrebatador, sanguinário, perverso, prazeroso, infinitamente sinestésico e infiel.

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Balaclava!

Sou como um cão treinado, que andava sozinho pela mata. Fiquei com neurose por causa disso, de tanto matar e não ter alguém do meu lado para abraçar. Viver na mata é duro. Passei doze anos sem voltar. Eu tinha uma barraca, um fuzil e muitas balas trazidas por um helicóptero. Ninguém conhece meu rosto, nem mesmo os comandantes.
É como se diz na corporação: “em boca fechada não entra mosca nem bala". Ninguém conta o que não vê. Meu trabalho era destruir laboratórios para o refinamento de cocaína e craque. Era um atirador de elite. Alguém que se fosse pego, morreria. Eu nem existo, não tenho rosto, RG, muito menos uma tropa na minha retaguarda, a solidão é minha eterna vida.
Minha função era dar um tiro. Ora matava um homem escolhido pelo comando, ora gerava uma explosão, tudo num tiro só. Normalmente a uma distância superior a um quilômetro e meio. Essa era a minha garantia. Sobre as minhas costas, havia uma camuflagem espessa como uma moita, que pesava uns doze quilos, mais uma mochila com mais uns trinta, dependia da quantidade de ração e munição comigo.
Foi o governo quem me ensinou a matar. Dizem que o maior troféu para um soldado do tráfico é o indicador de um atirador. Normalmente somos canhotos, para que eles não prestem atenção na gente. Há uma cultura de que os canhotos são ruins, lembra do tempo da escola? Sua professora não te obrigou a escrever com a mão direita?
Tudo isso é precaução, para que não cortem o indicador certo, caso façam a besteira de capturar um atirador. Isso impede que destruam o nosso chamado: “toque da morte”. Enquanto me locomovia pela selva, eu também sentia pena. Via a miséria e de certa forma, entendia aqueles homens abnegados.
Existem programas em prol dos homens da selva, mas isso é algo cultural, e o tráfico paga por dia, e bastante. Mas isso é uma pena, uma encruzilhada que me mostrava que a perfeição não existe, assim como não há o bem e o mal. É tudo uma questão de posição. Frente a frente, somos iguais, sabia? Existem mulheres e filhos dos dois lados, sorte e desgraça.
Matei mais de quinhentos homens, se somar os tiros, as explosões e as armadilhas que criava na mata. Sim, eu nem entrava em combate, muitas vezes era só cavar um buraco de um metro e meio, cravar uma estaca no centro dele e depois cobrir com uma armação de gravetos disfarçada por folhas secas. É muito funcional, em se tratando de objetivo.
Depois de todo esse tempo, eu não tinha mais senso de que lado estava, e a única coisa que reconhecia de verdade era a morte. Quando fiquei doente, perdi o controle. A esquizofrenia é a única medalha que me restou, e agora eles me puseram aqui, por causa das mortes que causei fora da selva. Primeiro eles foderam a minha mente, e depois me cobraram sanidade, como não tinha, vim para cá, para o mesmo lado daqueles que matei quando esses tiros começaram. E hoje, continuo esquecido, só que fora da selva, dentro de um quadrado de três metros por dois.

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Paranóia.

Quando a droga ficava escassa, a voz tratava de inflamar o garoto. Não havia descanso.
- Hei, moleque, levanta daí meu.
- Porra! Tem mais uma?
- Eu não quero saber. Quer me deixar a míngua? Matar quem está sempre contigo?
- Nada a ver camarada. Só mais um tapa.
- Não, não, não! Olha lá, tem uma velhinha passando com a bolsa cheia de grana. Assalta ela e compra mais antes que eu morra.
E o viciado atravessou a rua.
- E aí vovó, dá um trocado aí?
- Eu não tenho meu filho.
- E essa bolsa cheia?
- Não tenho dinheiro, já disse.
A velha foi agredida e caiu na calçada. E a sua bolsa foi arrancada rapidamente pelo viciado enlouquecido, que correu sem o menor medo. Quando chegou até a mureta onde dormia, encontrou sua amiga.
- Ah, moleque. Isso aí. Poxa, achei que me deixaria morrer...
- Não, olha só: consegui comprar mais cinqüenta pedras. Mas tive de dar um tabefe na maldita, ela não queria entregar a bolsa.
- É isso aí, a gente tem de pegar o que quer. E depois, aposto que ela usa a aposentadoria para encher a pança de passarinhos com alpiste e de gatinhos com carne moída de primeira.
- É verdade, mas eu já aprendi que não se deve carregar culpa nenhuma, nunca.
- É assim que se fala meu.
- Pode crer. Agora me deixa fumar mais uma.
Enquanto usava o crack, sua cabeça voava; a sensação era como uma martelada no dedo, a fome sumia, a força voltava. Sentia seu corpo mais poderoso do que cinco homens parrudos. Mas em poucas horas o bagulho acabou.
- Porra! Que merda.
- Deixa de onda moleque. Vai, se vira meu. Vai deixar sua camarada morrer?
- Não, deixa comigo.
O moleque saiu alucinado. Ventava, o frio tirava as pessoas da rua. O viciado ficou desesperado, então teve a idéia de ir para frente do hospital. Assim que chegou, pensou: Ah, me dei bem. Olha quanta gente.
Foi até a entrada destinada aos visitantes e encontrou um senhor que abria a porta do carro.
- E aí tio, me apóia num trocado?
- Eu não tenho – disse o homem com a porta ainda aberta.
- O tio, pensa que sou otário? Passa a grana!
E o moleque abriu a porta e grudou suas mãos na gola da jaqueta jeans que o motorista usava. Começou um combate. As pessoas que passavam pela calçada ficavam estarrecidas, mas ninguém tinha coragem de ajudar.
Foi quando os dois embolaram-se no chão, e rolaram até o meio de uma poça. O homem segurava as mãos do moleque que, irritado, soltou uma delas e enfiou os dedos nos olhos do cidadão.
- Ah! Filho da puta – gritava o homem de olhos fechados.
Nesse momento, o moleque grudou uma chave de fenda entre a segunda e terceira costela do tiozinho, que caiu na hora, bem no meio de toda aquela água suja. Depois meteu a mão no bolso e fugiu com a carteira.
Enquanto corria pelo meio do estacionamento do hospital, ninguém se atreveu a impedi-lo. Quando alcançou a avenida, sumiu no meio da multidão. Logo que chegou de volta ao muro onde dormia, encontrou sua amiga.
- Conseguiu?
- Claro que sim, eu não deixaria você morrer.
- Boa moleque, é por essas e por outras que você é meu garoto.

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Muralha solidão.

Nesse lugar tem cheiro de umidade e mofo.
As grades na janela sem vidro me dão uma sensação gélida.
Os fios de luz no teto estão arrebentados e muitos deles me incomodam quando fico em pé, e quando estou sentado me mostram uma decoração decadente.
Vejo os tristes passando, e as paredes quase demolidas.
As arestas de sol adentram más, aborrecem e dão desconfiança.
Essa latrina é um espelho para o fim e a desistência.
Onde qualquer esperança se esvai.
As baratas vêm aos milhares.
Elas invadem tudo, por que bem como chegam nadando saem correndo e batem asas.
As migalhas e o ácaro daqui são um agrado para as visitantes.
Deixo os farelos por que preciso de companhia.
E a poeira é um presente do tempo.
A minha paciência cresce todos os dias.
Contar baratas é uma diversão.
É como uma ampulheta dia e noite.
O pior é durante o escuro.
A noite passada um rato devorou o meu pacote de bolachas que estava sobre a mureta da janela.
Um presente cheio de insônia.
Eu dormia quando acordei com os barulhos.
Pesava uns quatro quilos, o rabo era mais grosso que meu anular.
Os dentes dele faziam uma ópera que me assustava.
Parecia que era a engrenagem de um carrossel bandido que atritava o silêncio.
É um pânico, olho aberto, é pulmão cheio e mão suja.
Um sinônimo para favores.
O cigarro é moeda para tudo e abre mais portas que as chaves.
É uma paranóia.
A fumaça faz o papel de esposa.
Fumar é como abreviar o tempo, como dar corda num brinquedo.
Aqui a gente busca inspiração em coisas que nunca me tocaram.
E pensar que a água gelada que usamos no banho me mantêm acordado para assistir essa mesma televisão interna todos os dias até tarde da noite.
Dormir quase não é.
É por isso que anoto muito que encontro aqui.
As coisas são de um jeito Sansão.
Tudo me parece um beijo que entrega para a morte e o esquecimento.
O sangue que mancha o chão do pátio e das passarinheiras é sempre ajuste de contas.
A condenação não é problema, porque estamos cercados pelo concreto e a véspera sem fim.
E de tudo que há aqui, o que mais me enfeitiça é o vento.
Bate tanto os corredores que se torna descomunal.
Esse tempo frio é intrigante, por que me mostra que estou no lugar mais aberto e mais fechado que existe.
Contato com o autor: afoborio@gmail.com