As cabeças rolarão, não haverá piedade, clemência ou salvação. Contato e envio de textos: cabecascortadas@gmail.com
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Ladrões do Tempo.

- É só apertar no reck e no play, ao mesmo tempo.
- Mas que merda, Ronaldo! Não tinha nenhum aparelho mais moderno para trazer não? Vamos gravar aquilo que poderá mudar toda a história da humanidade numa porcaria de gravador comprado num camelô?
- Dane-se a história da humanidade, Téo, não vê que já está gravando? Cale essa boca.
- Óquei, óquei.
Pigarreou e prosseguiu, falando bem baixinho.
Estava desconfortável embaixo daquela mesa.
- Estamos aqui, eu, Téo Soares, e meu companheiro, Ronaldo Altair, para provar aquilo que a humanidade já imaginava...
- Que chato, você! Porque fala tanto em humanidade, heim? Que obsessão!
- Dá para ficar com essa maldita boca fechada? Você está me interrompendo!
- Tá, desculpa, vá em frente Dr. Humanidade.
Téo resmungou.
- Como eu dizia, estamos aqui para confirmar aquilo que todas as pessoas já desconfiavam, apenas não conseguiam acreditar – e deteve-se, fazendo mistério – O que você vai escutar agora é uma reunião entre os homens que estão roubando o nosso tempo. Sim, meus caros amigos, vocês não ouviram errado: estamos sendo assaltados impiedosamente.

Se acomodou melhor e viu que Ronaldo estava distraído.
Pensou que o amigo era um paspalho mesmo, e que deveria ter chamado outra pessoa para ajudá-lo a desvendar crime tão safado.
Crime que Téo não demorou a perceber.
Demorou, sim, a acreditar.
Até porque não fazia nenhum sentido.

Uma noite reparou que seu dia havia sido menor que o dia anterior.
Era um homem pragmático, com uma rotina muito bem planejada: as sete acordava, as 8 ia trabalhar, as 9 ia ao banheiro (seu intestino era um relógio), as 10 tomava seu comprimido para dor de cabeça.
Um belo dia acordou as 7 e 5, e faziam 22 anos que ele acordava às 7 em ponto.
No outro, chegou 11 minutos atrasado no trabalho.
E havia saído de casa no mesmo horário, não havia enfrentado engarrafamentos, nada.
Como poderia?
A gota d’água aconteceu quando, ao invés das 9, foi ao banheiro as 9 e 10. Não podia ser possível, seu intestino jamais cometeria tamanho atraso!
Então começou a notar.
Seus horários estavam todos errados: acordava as 7 e 5 e passou a chegar atrasado em tudo quanto era compromisso – tanto que precisou sair 10 minutos mais cedo de casa, toda vez.
E para isso precisou acordar e ir dormir 10 minutos antes.
Apelou para o despertador, pois não estava acostumado a mudanças bruscas de horários.
E foi aí que teve certeza.
Programado para apitar às 7, as 7 o despertador apitou.
Téo abriu os olhos, espreguiçou-se, sentou na cama.
E já haviam passados 10 minutos!
De uma hora para outra e num piscar de olhos, literalmente.
Levantou sobressaltado e decidido a descobrir que merda estava acontecendo.
Não era possível: ele viu as horas quando abriu os olhos, e eram 7, e então sentou na cama e já haviam passados dez minutos?
Será que o relógio havia enlouquecido?
Será que ele havia enlouquecido?
Correu até a cozinha e verificou o relógio de parede: 7 e 12.
Como nunca havia percebido nada?
Logo Téo, tão observador!

Ligou para a empresa e avisou que não iria trabalhar porque estava doente.
Havia bolado um plano – um plano bastante monótono, é verdade, mas um plano: passaria o dia inteiro olhando seu próprio relógio virar minuto a minuto, segundo a segundo.
Por mais descabido que pudesse parecer, Téo tinha certeza que haviam roubado dez minutos do seu dia.
E assim passou, olhos fixos nas horas.
E foi-se a manhã, e foi-se a tarde.
Téo já começava a sentir-se um imbecil:
- Tenho que parar de assistir ficção científica.
Seus olhos doíam, mas ele pôde ver quando aconteceu: às cinco e catorze da tarde, ao invés do relógio virar para cinco e quinze, trocou para cinco e vinte e quatro.
Levantou assombrado.
Olhou imediatamente para o relógio na parede e, inexplicavelmente, ali também haviam transcorrido dez minutos em um.
Sentiu seu coração acelerar e bater em sua garganta.
Estavam mesmo roubando seu tempo!

Mas quem e por quê?
Seria só o seu ou também o das outras pessoas?
Telefonou para quatro amigos e pediu as horas, e todas conferiam com a de seu relógio usurpado.
Seu relógio não, pensou, sua vida!
Quantos minutinhos já não tinham misteriosamente desaparecido, sem que ninguém pudesse dar-se o trabalho de perceber?
Claro, eram pouquinhos, quem notava deveria acreditar que era a vida, que andava corrida, e nunca o tempo, que era roubado.

No dia seguinte, lá estava novamente Téo, ligando para a empresa para avisar que ainda estava doente.
Queria saber quantas vezes a cada 24 horas os safados, sejam lá quem fossem, roubavam seus minutos vitais.
No final das contas isso deveria representar uns bons anos de vida.
Então era por isso que acreditávamos que as pessoas viviam mais quando, na verdade, os anos é que estavam mais curtos.
Que terrível.
Muniu-se com café e sentou-se na frente do relógio.
De vários relógios, na verdade.
Precisava ter certeza.

Desta vez demorou mais.
Já fazia quase 18 horas que estava ali, sentado, quando observou: das 22 e 3 os relógios passaram para 22 e 10.
Inclusive os que estavam adiantados e atrasados: todos saltaram 7 minutos.
Téo anotou isso em sua caderneta.
Depois, somente às duas da manhã os relógios pularam novamente, e desta vez 10 minutos.
Só aí já foram 17.
E às 5 da manhã, quando o pobre mal conseguia manter os olhos abertos e sua gastrite já avisava que era hora de suspender o café, aconteceu de novo: das 5 e 5 fomos para as 5 e 13.
25 minutos roubados descaradamente em 24 horas.
175 minutos por semana, 750 por mês, 9 mil 125 por ano!

Estava chocado, mas, principalmente, intrigado.
Quem, onde, porque, de que jeito?
Foi o que descobriu, após muita investigação.
E agora estava ali, embaixo de uma mesa, prestes a comprovar por A + B o que já tinha certeza absoluta: estavam roubando o nosso tempo.
Safados.
Só se incomodava de ter de registrar tão significativo momento em um gravador de camelô.
Fitas cassetes, quem usa isso ainda?
E Ronaldo foi uma péssima escolha para assistente de investigação, pensava Téo.
Era muito burro, e parecia pouco se importar com o que estavam prestes a comprovar.
Seriam condecorados, considerados heróis, talvez ganhassem até uma estátua no Museu de Cera, e Ronaldo ali, mascando um chiclete.
Então, um estalo chamou a atenção dos dois para o gravador.
Os botões reck e play simplesmente desligaram.
Téo os pressionou novamente, mas era como se as molas do acionador tivessem arrebentado.
- Mas que porra é essa?
Ronaldo fez uma careta:
- Putz, parece que o gravador estragou.
- Estragou é? Pois o que deveria estar estragado era o espermatozóide do teu pai, seu maldito! E agora, o que vamos fazer? O que será de nós? O que será da humanidade?
- Ah, quer saber? Não tô nem aí para a humanidade. Lamento pelo que me roubam nos finais de semana, mas se quiserem continuar levando meu tempo de trabalho, fazem é um favor. E tô indo, porque ficar acocado embaixo dessa mesa destruiu meu nervo ciático.
Ronaldo saiu, abriu a porta e se foi.
Então eles, os usurpadores, entraram e acomodaram-se em seus lugares: a reunião ia começar.
E Téo ficou ali, com o gravador estragado na mão.

#

- Uma coisa precisamos admitir: ele conta esta mesma história, em cada minúsculo detalhe, desde que chegou aqui.
- Daria um bom escritor, se não estivesse demente.
- O mais engraçado é que ele foge de todos os protótipos de doentes mentais que já conheci, e olha que lá se vão 30 anos trabalhando em manicômios. Téo é um sujeito muito pacífico, fala pausadamente, não perde nunca a tranqüilidade e, o mais impressionante: não se contradiz.
- O que não significa que não esteja louco.
- Claro que não. Onde já se viu, ladrões de tempo... Por mais que, muitas vezes, eu também tenha essa impressão, sabemos que o tempo é algo impossível de ser surrupiado.
Médico e enfermeira observaram por mais alguns minutos Téo sentado em sua cama, olhando fixamente para um relógio de pulso parado.
- Doutor, não quero lhe apressar, mas já são 6 horas.
- 6 horas? Meu Deus, o tempo voou! Agora a pouco eram cinco e meia! Tenho uma reunião, preciso correr. Até mais.
- Até.
E lá dentro do quarto gradeado e branco, Téo resmungava com a mesma parcimônia que lhe era característica:
- O tempo não voa. O tempo desaparece.
A enfermeira suspirou e percebeu que já eram 6 e 10.
- Nossa! Preciso ir também.
E nas paredes de todo o mundo, todos os relógios continuaram a virar, segundo a segundo, minuto a minuto.
Sem que ninguém pudesse perceber.

Jana Lauxen escreve: http://www.janalauxen.blogspot.com, http://www.3ammagazine.com/brasil, http://cafeespacial.wordpress.com e http://www.jornalvaia.com.br
Contato com a autora: 3am.jana@gmail.com

O Ilustre e Imprescindível Investigador Alcebíades.

Chegou em casa satisfeito, carregando nas mãos o pesado troféu e embaixo do braço direito a caixinha azul, que guardava uma placa toda em ouro - homenagem da Prefeitura da cidade de São João do Porto ao seu mais distinto investigador.
Alcebíades era seu nome, e nos últimos 22 anos ajudara a pequena comunidade de nove mil habitantes, ao sul de Itararaguá, a manter a moral e a ordem, prendendo criminosos hostis que insistiam em perturbar a paz daquele povo tão pacato e feliz.
Primeiro foi aquele pobre infeliz, o Anastácio, homem trabalhador, assassinado a tijoladas pela amante jovenzinha, que estava grávida. Crime hediondo, um dos primeiros a arrancar o sono dos moradores, que até então só haviam visto violência e assassinatos pela televisão.
Nessa época, Alcebíades era ainda um jovem policial que iniciava sua carreira de investigador. Mal assumiu o posto e já se viu obrigado a resolver tão complexo caso, veja só.
E pouco mais de oito meses depois, outra vítima, outro crime aterrorizante: desta vez uma menininha, Carmelita, morta de jeito tão cruel pelo próprio pai!
São João do Porto foi parar até no Jornal Nacional, e não fosse a presteza e a habilidade de Alcebíades, até hoje os assassinos estariam à solta, representando enorme perigo à população tão idônea.
Seguido deste, outros crimes horríveis assolaram a cidadezinha nos anos seguintes: um morador de rua, queimado vivo por um viciado em drogas. Uma senhora já idosa, que todos os dias levava seu cachorro para passear na pracinha, acabou esquartejada junto de seu animal de estimação pela ex-empregada, que reivindicava mais dinheiro pelos serviços prestados. Uma estudante foi esfaqueada brutalmente pelo ex-namorado. Uma professora apanhou até a morte de um aluno, que dizia estar por ela apaixonado.
Não se sabe o que teria sido da comunidade, caso não pudessem contar com a eficiência de Alcebíades que, com um faro impressionante, descobria os mais obscuros e intrincados detalhes, encontrando provas em minúcias que passariam despercebidas para qualquer outro investigador.
Menos para ele.
Alcebíades comprovou que crimes perfeitos não existiam.
Não se ele estivesse no comando.

Ligou a luz da sala e acomodou o troféu em cima da estante, junto de outras medalhas e condecorações que recebeu ao longo de seus vários anos de serviços prestados. A placa em ouro colocou sobre a mesa de centro, e sentou no sofá para admirar o reconhecimento de seu trabalho.
Sorriu.
Era um cidadão honorário, homem de bem, respeitado e adorado. Poderia até se lançar para prefeito, se quisesse. Venceria facilmente, todos o consideravam um herói.
Um homem que prezava pela retidão e pela ordem.
Não fora fácil.
Chegara na cidadezinha com pouco mais de 29 anos, louco para trabalhar e mostrar sua habilidade para desvendar crimes, tal e qual via no cinema e nos seriados de televisão.
Para isso se tornara investigador: queria encontrar os assassinos, os bandidos, os criminosos, e colocá-los atrás das grades. Queria fazer justiça, as pessoas precisavam de justiça.
Precisavam ver os culpados punidos para continuarem com suas vidas seguras e felizes.
E ele estava ali para isso.

Acontece que São João do Porto não era exatamente a cidade que Alcebíades imaginava para firmar sua carreira brilhante de investigador policial. Tentou durante quase um ano transferência para uma cidade maior, mais violenta, mais emocionante, mais caótica.
Não conseguiu.
Só por isso, precisou cometer os crimes que iria, então, investigar.
E desvendar.

Não era um assassino, era um investigador, disso tinha certeza.
Mas que culpa tinha ele se haviam restringido toda sua perícia e genialidade a uma cidadela que não precisava nem de uma coisa nem de outra, pois não havia crimes, muito menos criminosos?
Até que foi relativamente fácil.
Cidade pequena, gente sem ter o que fazer, sabem como é: todo mundo fala da vida de todo mundo.
Com sua esperteza, logo encontrou quem poderia, potencialmente, ser seu criminoso.
E também quem seria a pobre vítima da vez.
Até por que, qualquer pessoa tem um motivo para matar e outro para morrer. Ele apenas uniu o útil ao agradável.
Assim todo mundo ficava feliz: ele tinha crimes para investigar, e os criminosos sequer precisavam se dar ao trabalho de matar – ele próprio se encarregava disso.
Isso sem falar na comunidade, que se sentia protegida graças a sua astúcia.
Olhou outra vez para a placa de ouro, reluzente, nela gravada em letras garrafais:

Ao nosso ilustre e imprescindível investigador Alcebíades Andrade,
pela competência, honra e coragem,
sempre em busca da proteção e da integridade
de nossos cidadãos.


Sorriu.
Era o ilustre e imprescindível investigador Alcebíades Andrade.
Sim.
Estava satisfeito.

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Ela e Ele.

A maldita era branca e o seu apelido era Branco.
Branco por causa dela, a branca.
Cocaína era uma merda.
Mas ele gostava dela, e gostava tanto, que ganhou o apelido: Branco.
E agora, tanto tempo depois, outra vez ela.
A maldita.
Ali.
Tentou disfarçar, mas não conseguia deixar de encará-la.
Era insuportável vê-la e não sentir tudo de novo.
Era sempre tão sedutora e gentil, sempre tão simpática e linda.
Como aquela loira que estava paquerando quando a enxergou ali, perto do sofá.
Se precisasse escolher entre a loira simpática e linda e ela, escolheria ela, sem pestanejar.
Trocaria todas as mulheres do mundo por ela.
Ah cocaína, sua safada.

Querendo se distrair, bebericou um pouco, sabendo que bebericar era o trampolim que precisava para mandar seus 7 benditos meses abstêmios para a puta que pariu.
Olhou para os lados e tentou, desesperadamente, encontrar alguma coisa que lhe prendesse a atenção, e tirasse seus olhos, seus pensamentos e seu nariz - que já começava a escorrer - dela.
Nada, não havia nada.
Não podia cair outra vez na sua lábia.
Lembrava bem, não tinha como esquecer: eram noites divertidíssimas ao seu lado, e Branco se sentia o maior e o melhor, entre todos.
Ela o fazia sentir-se assim, superpoderoso.
E por isso ele a queria, por isso a desejava com tanta angústia.
Só que, de repente, ela sumia.
Desaparecia e o deixava completamente sozinho, passando mal.
Levava seu dinheiro, e não foram poucas às vezes em que levou também sua dignidade.
Então olhava pela janela do seu quarto, vendo o sol pálido da manhã entrar como um intruso, e ele ali: sem cigarros, sem sono, sem noção, pensando nela, nela, nela.
Era horrível.
Nessas horas, jurava:
- Nunca mais, essa pistoleira de araque!
Ela que não venha para cima de mim, pois a mandarei para o inferno, lugar de onde nunca deveria ter saído.
Que nada!
Bastava ela aparecer, outra vez sedutora e gentil, e ele ia.
Ia com ela.
Ia sabendo que voltaria sozinho, de qualquer maneira.
Então inventava desculpas para perdoá-la:
- Estou triste, tenho que esquecer.
- Estou feliz, tenho que comemorar.
E mentia, mentia muito, mentia o tempo todo.
Por causa dela, e da falta que ela o fazia, se tornou um sujeito agressivo e mal humorado.
Quando não estava com ela, não queria estar com mais ninguém.
Porque ninguém era como ela.
Maldita cocaína.
Um dia deu um basta!
Trancou-se no quarto e avisou a mãe:
- Passe a comida por debaixo da porta e não me deixe sair sob nenhuma hipótese.
A mãe acatou, sabia da paixão do filho pela danada.
E lá Branco ficou, tentando deixar de ser o Branco para voltar a ser o Marcelo.
Era Marcelo seu nome de batismo?
Quase nem lembrava mais.
Passaram 4 meses.
4 meses no mesmo quarto, Branco versus Marcelo.
Marcelo ganhou, pelo menos aparentemente.
Saiu vitorioso, e chorou quando enxergou a rua pela primeira vez, depois de todos aqueles anos de devoção total a ela.
Anos em que não viu nada além dela.
Pensou que estava curado.
Maldita cocaína.
Agora de novo, ela ali, mais uma vez.
O encarando, o seduzindo, o chamando:
- Branco.
- Branco.
- Branco.
- Meu nome não é Branco!
É Marcelo.
Era Marcelo?
Sim, era, e disso ele não podia esquecer.
Tentou rememorar, com ansiedade, tudo o que ela lhe fez passar.
Não a perdoe, não a perdoe, não a perdoe.
Ela não merece uma segunda chance.
Ela mente, é uma desvairada.
De tudo isso tentava se convencer, e Branco, renascido das cinzas, lutava mais uma vez com Marcelo.
Acontece que Branco era desleal.
Chutava no saco, dava rasteira, apunhalava pelas costas, atirava areia nos olhos do oponente, que tentava jogar limpo.
Pior era ter que ver ela ali, ainda por cima torcendo contra.
Contra Marcelo.
Que, cansado, pediu água e levantou a bandeira.
Bandeira branca, igual ela.
Resolveu se entregar.
Branco aproximou-se da mesa onde ela, soberana, repousava.
Vencera a peleja; com ela era realmente o maioral.
O mais forte.
O dono da situação.
O cara.
- Querida, que saudade.
Então sentiu.
Antes do primeiro aconchego e da primeira cafungada.
Uma dor de barriga lancinante, uma diarréia incontrolável.
Soltou dois ou três peidos, detectados pela audição e pelo olfato de todos que estavam por ali, com ela.
Tentou correr para o banheiro, mas já saiu se cagando por entre as pessoas que abarrotavam a sala.
Foi um fiasco.
A festa toda parou para ver Branco e suas mil flatulências.
Até a loira simpática e linda que foi trocada por ela agradeceu a Deus pelo fora que levou.
Branco, o fracassado.
Perdeu a batalha, por fim.
Deveria saber que todo bom jogador sabe que não se ri por último, quando não se é o último.
Marcelo, afinal, tinha lá seus truques.
Truques sujos, além de muito mal cheirosos.
Maldita cocaína.
Definitivamente, não queria vê-la nunca mais.


Jana Lauxen escreve:
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Vovó Imelda.

Vaca.
Era o que pensava Rogério enquanto, encostado em uma árvore, observava a casa que até seis anos atrás chamava de sua.
Viveu ali uns bons dez anos, ao lado de Irene, a vaca, e aqueles cachorros idiotas que ela chamava de bebês.
A casa agora estava com outra aparência: cerquinhas brancas, uma caixa de correios em forma de casinha, as paredes pintadas cor de rosa, um pomar perto da garagem, uma gaiola na varanda com um papagaio enfiado dentro.
Rogério não gostou, porque achou tudo muito careta.
Mas a verdade é que a decoração da nova moradora pouco interessava.
Ele queria era saber do seu diamante, enterrado no meio da cozinha.
Mais precisamente embaixo de um azulejo azul, levemente rachado, da esquerda para a direita de quem entra.
Foi ali que escondeu seu tesouro, 5 milhões de dólares, fruto do único assalto decente que fez na vida.
Era ladrão pé de chinelo, mas naquela joalheria metida a fina superou-se, e se deu bem.
Ou, pelo menos, era o que pensava quando enterrou sua fortuna logo ali.
A casa era de sua finada mãe e, depois de cumprir seus seis anos de cadeia, o plano era sair, pegar o que era seu por direito e viver feliz para sempre tomando cicuta e comendo azeitonas em um duplex na avenida central.
Mas aquela vaca da Irene, a cretina que dormiu ao seu lado durante 15 anos e lhe jurou fidelidade absoluta, vendeu a maldita casa e se mandou com um mexicano de bigode cantador de bolero.
Ela ter ido embora era até bom.
Uma chatinha, a Irene, sem contar que andou engordando nos últimos anos.
Podia fugir com o mexicano, e graças a Deus levou consigo aqueles cachorros enjoados, mas não precisava vender a casa!
Não a casa que guarda um diamante de 5 milhões de dólares embaixo do azulejo da cozinha!
Fez bem quando decidiu não lhe contar que o assalto, ao contrário do que parecia, havia sido um sucesso.
Senão agora quem estaria feliz tomando cicuta e comendo azeitonas em um duplex na avenida central seria ela e seu amante bigodudo.
Respirou fundo.
Antes de alimentar sua fúria contra Irene, precisava descobrir quem era o novo dono da casa, e como faria para pegar de volta o que era seu.
- A César o que é de César.
Foi o que Rogério disse, um pouco antes de acender um cigarro.
Então a porta da frente se abriu, e de lá saiu uma velhinha de cabelos brancos e vestido azul. Caminhava devagar e delicadamente, acenando para todo mundo que encontrava. Parecia com dificuldade para carregar uma sacola toda florida, e Rogério não perdeu tempo:
- Ajuda, senhora?
A velha abriu um sorriso gentil:
- Oh, sim, obrigada meu filho.
E lhe alcançou a sacola que, até mesmo para ele, pareceu pesada.
- Vou até o orfanato, na rua ali de baixo. São biscoitos e tortas que eu levo para as criancinhas, toda semana.
- Que legal – respondeu, enquanto bocejava.
Ela lhe estendeu a mão.
- Imelda, prazer.
- O prazer é todo meu, senhora. Rogério, ao seu dispor.
E, devagar, os dois foram descendo a ladeira.
Na volta do orfanato, Rogério já estava bem mais sossegado.
Conseguir entrar na casa seria mais fácil do que poderia imaginar.
Vovó Imelda era muito amigável. Foi logo contando que morava sozinha, e não tinha filhos, apenas um papagaio chamado Alfredo. E que gostava de fazer bolos e doces, e cuidar de hortas, e Rogério logo deduziu que a velhota só podia ser carente.
Perfeito.
Então ofereceu-se para levar os aperitivos para a criançada toda a semana.
Depois se dispôs a ajudá-la também com a horta.
Logo, foi convidado para tomar uma xícara de chá, e descobriu com alegria que os azulejos da cozinha continuavam os mesmos.
Quando viu, já aparecia para o café da manhã, o almoço e, algumas vezes, até para o jantar, sempre elogiando exageradamente seu tempero.
Em um mês, era o queridinho da vovó Imelda.
Inventou para a velha um monte de mentiras: disse que era estudante, e dividia um apartamento com alguns colegas de faculdade, há poucas quadras dali. Disse que estava procurando um estágio, mas que era difícil para quem estava começando. Disse que seu sonho era trabalhar e encontrar um grande e verdadeiro amor, e vovó Imelda achou tudo isso muito fofo.
Um dia, enquanto comiam um bolo de cenoura na cozinha, vovó pediu licença e foi até seu escritório atender uma ligação.
Era a oportunidade que Rogério esperava.
Até porque não agüentava mais a conversa mole e açucarada de Imelda.
Só suportou tanto tempo porque a velha cozinhava muito bem, mas até seus quitutes andavam lhe fazendo mal, e uma dor de barriga terrível lhe atacava quase diariamente.
Sem pensar, largou o bolo no prato, contou os azulejos, encontrou o azul rachado, retirou-o e, ao fundo de um buraco de mais ou menos 20 centímetros, dentro de um pacote de veludo vermelho, deparou-se com seu diamante.
Sorriu, quase emocionado, e já ia colocando a preciosidade no bolso do casaco quando sentiu um estrondo seco, e algo quente escorrendo pela sua nuca.
Levou a mão ao pescoço e a trouxe de volta, encharcada de sangue.
Ainda teve tempo de ver vovó Imelda parada na porta da cozinha, surpreendentemente boa de alvo, apontando-lhe uma pistola:
- Desculpe, meu filho, mas na minha pedra ninguém meche mais.
Rogério caiu morto, de bruços, a pedra firme em sua mão.
Imelda suspirou, levemente entediada, e com as dificuldades habituais que seus 73 anos ofereciam, caminhou até o corpo, ajoelhou-se e arrancou o diamante da mão do defunto.
O mesmo diamante que lhe foi roubado seis anos atrás, enquanto era restaurado em uma joalheria fina.
E pior: roubado por uns ladrões pés de chinelo, que acabaram capturados algumas horas depois e sequer saberiam apreciar devidamente tão rara jóia.
Todas as jóias furtadas durante o assalto foram recuperadas.
Todas, menos o diamante.
O seu querido diamante.
Imelda prometeu que não morreria antes de recuperar seu tesouro.
Não foi difícil.
Ao contrário do que o palerma do Rogério pensava, Irene sabia sim da existência do diamante.
O que ela não sabia era que aquela pedra branca do tamanho de uma uva valia 5 milhões de dólares – o que facilitou muito a vida de vovó, que acabou comprando de volta o diamante por menos de 200 mil.
Ter dinheiro, cabelos brancos e boas fontes facilitam muito a vida.
Assim, quando Rogério apareceu na sua frente, há algumas semanas atrás, oferecendo-se para carregar sacolas com donativos, vovó Imelda sacou de cara quem ele realmente era.
O conhecia pelas fotos, espalhadas por toda a casa - casa esta que também comprou de Irene, a preço de bananas.
Imelda ficou porque queria conhecer o sujeito que lhe tomou tão adorado bem, e sabia que a primeira coisa que o desgraçado faria ao sair da cadeia era voltar para casa.
E quando ele voltasse, ela estaria lá, o esperando.
Aquele assalto não ficaria por isso mesmo, mas de jeito nenhum!
Afinal passou por um processo muito traumático com o roubo de seu diamante de estimação. Ganhou rugas, uma gastrite, cabelos brancos. Até voltou a fumar, imagine só!
Seis míseros anos de cadeia para punir ato tão sórdido contra sua dignidade eram irrisórios.
Por isso os chás e os bolos servidos para Rogério vinham sempre temperados com farelos de vidro.
Nada exagerado.
O plano era matá-lo devagar, mas neste ponto o bandido até que se deu bem.
Sua morte acabou sendo bem mais rápida que a planejada por vovó.
Imelda olhou outra vez para o defunto, com nojo.
Finalmente poderia deixar aquela casa caindo as pedaços, e aquele bairro suburbano, e aquele orfanato cheio de fedelhos piolhentos e famintos, e aquele papel de vovozinha-querida-incapaz-de-fazer-mal-para-uma-mosca.
Não queria de jeito nenhum passar seus últimos anos fazendo bolos e doces e cuidando de uma horta, muito menos em um lugar com cerquinhas brancas, uma caixa de correios em forma de casinha, paredes pintadas cor de rosa, pomar perto da garagem.
Chegava a ter ódio de Alfredo, o maldito papagaio.
Queria mais era viver feliz para sempre tomando cicuta e comendo azeitonas em um duplex na avenida central.
E foi o que fez, antes de desovar o corpo de Rogério no aterro de lixo da cidade.
- A César o que é de César.
Foi o que ela disse, um pouco antes de acender um cigarro e ir embora.

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